sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A revés

Na altura do COPA70 caiu, cotovelos e joelhos ao solo, os olhos miúdos no concreto esburacado da calçada: lodo, poeira em lama, pedregulhos – início da madrugada de um Janeiro encharcado. Escorregara ao descer pela passagem dentre os trilhos da Rede (marias dormideiras em suas funções), segurando-se ao muro que ladeava a rua. Um gato preto o ultrapassara na altura do morro da Conceição, perdeu-se entrelaçado pelos fícus que sombreariam a rua em qualquer tarde, os pêlos afugentados se escondendo das águas.
“Desce mais uma, capitão”, os olhos fumegando o balcão engordurado, pastéis murchos deitados na estufa - três homens discutiam coisas quaisquer. Desenrolou o segundo maço de cigarros do dia, rompeu o papel prata com indicador, polegar e médio, prendeu o cilindro branco entre os dentes vendo o barrigudo dono do bar jorrar mais uma dose de aguardente (“põe mais”) – riscou o fósforo, baforou para cima, tomou o meio copo americano numa só talagada. “Mais uma e a conta companheiro”, limpou os beiços no ombro da camisa azul amarrotada e, sem dirigir palavra a nenhum dos presentes, saiu do bar olhando fundo o calçadão do Porto Velho a se perder.
Esgueirou-se pelo minúsculo corredor que separam cozinha e quartos chegando à sala, a televisão em explosões e tiroteios testemunhando os olhos atentos da menina. Sentou-se, as costas se incomodando no sofá de dois lugares, o olhar vidrado na maçaneta, no telefone. “Vou sair”, semi-silêncio, nulo impacto à atenção da filha, “já volto”; levantou-se até o móvel único, pegou as chaves e o isqueiro, a carteira; abrindo a porta, saindo à rua, sentiu as primeiras águas do fim de noite.
As pernas se encaracolavam pelos lençóis e colchas que, redemoinho, confundiam a cama vazia, o ventilador bamboleando no teto gélido de infiltrações, o suor submergindo por suas costas e dorso, vontades e calores na vista turva que se espremia pelas portas do guarda-roupa abertas, uma cadeira sustentando as calças e camisas enxovalhadas, o abajur vendado.
Trabalhou meticulosamente em nebulosa, os braços suados pelo extenso volante do TAP: linha São José – Jaqueira, os olhos que inebriados se expandiam pela praça do Porto, a Ilha, o paredão da Rede, o Santos Anjos, qualquer bar, birosca, botequim, supermercado, ponto, ponta de casa, porta aberta, qualquer olhar perdido que guardasse um chamado pelas ruas de paralelos sinuosos que tremelicavam o carro, os passageiros.
Um sol branquelo repousava sobre o quintal pelo início da manhã, a seus pés a terra batida, a sombra-cópia da goiabeira esquelética. A filha desenhou o corpo no portal da cozinha, os cabelos desgrenhados, os olhos relutando o dia. “Pai”, um sussurro, miado, a voz fina se espalhando à beira-rio, “a mãe não ta em casa não?”. Espalmou a fronte da pequena trazendo-a de encontro ao corpo, “Vai lá pra dentro filha, vai. Papai vai arrumar o café pra você”.Os dedos descobriram um cigarro amassado ao bolso direito da calça; olhou a BR longe, do outro lado do rio: o dia se abrindo.
Trôpego pela rua, tentava se equilibrar sobre os paralelepípedos, a chuva lhe incomodando o corpo. Atravessou a extensão de mão única tentando apalpar a carteira ou as chaves, os cigarros – não os achando. Seus olhos em brilho focaram o poste, a lâmpada, e era como se a chuva resultasse em inverso, como se as águas, de baixo pra cima, pontilhassem a luz. Recuperou-se lendo a placa: BAR E RESTAURANTE COPA 70, a Adão Araújo se encaminhando em direção à praça, o tempo escondendo a cidade.

Nenhum comentário: