O casaco em frangalhos movimentava-a pelo quintal dentre as plantas do canteiro, uma alameda de salsinhas e cebolinhas que desembocavam no grosso tronco da mangueira; à frente uma raquítica goiabeira se encostava à cerca de bambus amarrada por arame, à esquerda o mamoeiro. Abriu o portão com as mãos trêmulas e pisou, chinelos e meias, na flácida beira-rio, as águas estéreis aos ouvidos, o frio que cortava o rosto, os lábios, o corpo num Agosto gélido. Do outro lado, as casas apagadas, silêncios. Volveu o corpo em direção a casa, os pés tateando a terra escura, o cimento liso da ladeira de acesso. Na cozinha, à luz acesa, aprumou o coador na térmica (vigiando a leiteira ao fogo), lavou um copo, partiu em dois o pão que dormia solitário no fundo de uma sacola por cima do tampo de vidro do fogão (vigiando a leiteira ao fogo), esmaltou com manteiga as duas metades após arrancar seus miolos, esfregou os olhos que rebolavam a ir pra cama, desligou o fogo observando as bolhas de água elevando-se em mínimas explosões, despejou-as. A luz amarela e trêmula contemplava o chão de mesma cor da sala conjunta, a bi-cama desarrumada por cobertores, a tevê que explodia quaisquer gentes, quaisquer vozes, o telefone calado, trancafiado o discador. Avançou os pés pelo ressalto que abria a sala de estar, a segunda metade do pão ainda mastigando, o café na caneca de alumínio que esquentava as mãos; a planta que enfeita no Natal com luzes (fins de Novembro a Dia de Reis) sustentava um dos cantos; à frente a Santa Ceia em vidro bem à altura dos olhos. Ladeou os dois sofás de napa marrom, flores cravejadas no dorso, no fino espaço do primeiro cômodo da casa, e sustentou-se frente à janela da rua, os olhos andrajos pelo muro do Esporte Clube São José: VAMOS LÁ BRASIL – FRANÇA 98. Um sussurro qualquer distraiu a observação, mas a porta ainda inerte apenas amparava a sala com seus semicírculos entrelaçados num tapete de vidro: plena escuridão na varanda de fora. Vasculhou os óculos nos bolsos da roupa, e colocando-os enxergou seu quarto parcamente iluminado pela luz da sala, a colcha vermelha bem esticada, o terço preso acima da cabeceira e que, perfilado, era uma trança negra e única. E o que ele diria se ali estivesse: que bebera sim mas pouco, que não, não era igual ao pai, que ela dormisse pois amanhã levantaria bem cedo e a levaria à missa da Matriz, e que vó, todo trabalhador merece uma diversão, um descanso. O que ele diria se ali estivesse.
À porta do quarto, as mãos e caneca junto ao peito, os olhos pisca-piscando por trás das lentes, volveu o corpo aquiescendo voltar à cozinha.
À porta do quarto, as mãos e caneca junto ao peito, os olhos pisca-piscando por trás das lentes, volveu o corpo aquiescendo voltar à cozinha.
2 comentários:
pisca-piscando? Porra, quase considero roubo. teje dito.
Hello. This post is likeable, and your blog is very interesting, congratulations :-). I will add in my blogroll =). If possible gives a last there on my blog, it is about the Aluguel de Computadores, I hope you enjoy. The address is http://aluguel-de-computadores.blogspot.com. A hug.
Postar um comentário