Nas costas da samambaia brotoejas, áspera a pele dos dedos, Oi é a Ana no momento não posso atender, deixa um recado se quiser encostada às grades da varanda a comigo-ninguém-pode abraçada pelo sol de metade da manhã, abaixo o marrom dos trilhos brilha em detrimento à ausência de cor dos paralelos você vai me esquecer? , livros e discos empilhados pela sala, um quadro rosto de cristo talhado em madeira, a poeira dançando em plena réstia fico aqui encaracolando o tempo, tentando esmiuçar as coisas, perceber Oi, sou eu, você não está aí mesmo? . Os pés descalços se assustavam pelos hexágonos de concreto que forram a praça da matriz, à direita o coreto (uma cúpula, coroa, calabouço), à esquerda o parque vazio Eu ainda to na casa da minha mãe, fiquei aqui pra ajudar ela a reorganizar as coisas depois de ; pela frente a ladeira que alça fiéis à igreja – encravada em seu tecido a cruz de mármore o teu nome, ainda sei teu nome, ainda – o filho crucificado na capela à direita do topo: a mão desenharia a bênção ... você sabe né? Tem sido tão difícil Ana, tão difícil. Eu. Eu queria que você estivesse aqui sabe? Eu queria . O telefone ao lado direito da porta que leva à varanda – nenhuma chamada registrada o corpo, o meu, o teu corpo, tão distintos, distantes . Na sala, a mesa posta: longo descanso de renda branca, uma orquídea de plástico descansava ao centro. Livros e discos, uns a uns, ladeavam pelas prateleiras o sudário em madeira que você voltasse pra cá, ficasse comigo . O dia se arrasta pelo céu de nulas nuvens; o tempo inteiro aqui dentro A varanda tinha como porta a samambaia dependurada, sustentada por um gancho; longe, o prédio da Sete de Setembro, os trilhos que levam e trazem os cobreados vagões da rede, o sol. Ana? abaixo, a praça vazia.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário