segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Tarde

O interfone tocou?


, deitada de bruços, o ventilador de teto para cima, senão frio demais, lembrando, ziguezagueando as horas na imagem do menino indo deitar, shorts xadrez em vários tons de cinza, o dorso descoberto molhado pelo suor de um dezembro em férias, os cabelos aplanados no braço esquerdo do sofá: boa noite dorme com deus tenha bom sono e bons sonhos, olhando-a duas jabuticabas semi-esgueirando-se pelo teto branco gelo, a face da televisão explodindo em gols da última rodada do brasileirão últimos dias do arena sportv, rememorando quando vagava num início de tarde, dez onze de outubro, as pernas axilas rosto nuca abrasados pelo amarelo do sol de um meio-dia de sempre, pela ruela que desenha o vão entre a casa do estudante e a cirandinha numa loja de brinquedos descontar uma ficha do mês anterior dois bonecos comandos em ação, e ele olhos ávidos no batmóvel pomposo da vitrine, “mão eu quero!”, a magrinha vendedora, “leva pra ele”, e ela resolvendo “não, meu marido já comprou o presente, não vai precisar”, ele grunhindo, esperneando nenhuma lágrima, ela andando direta no rumo da praça arrastando o tiquinho de gente, esfrangalhando seu pulso esquerdo num “em casa a gente conversa” entre dentes que chegando potencializou-o em berros e lágrimas e um castigo de semanas sem colocar os pés na rua, “nem pra ir na quadra da vila? nem pra ir na graminha da ilha? nem pra brincar no beco da caixa d’ água?”, não senhor, e foram tantas brigas e ele crescendo, um galalau magricelo, calado, mas ainda assim respondão, truculento nas palavras, muito pior depois que o pai desabou na cozinha logo após um almoço de terça-feira chuvosa qualquer, “enfarto fulminante” disse o médico, e o moleque, homem já, até barba fazendo toda semana, cada vez mais quieto, revoltoso, socando a mochila em qualquer canto do quarto, arrancando abrupto os tênis, desligando só em frente à televisão telejornal esportivo, apoiando o prato na palma da mão direita, nas coxas: “senta aqui com a mãe” não sentava, e ela esperando a hora do banho para vasculhar suas coisas, os dedos ágeis encontrando um maço de star pela metade, uma caixa de fósforos, até que m dia no fundo da gaveta onde abarrotadas dormiam revistas em quadrinhos, envolto em plástico, na trilha única para indicador e médio, o bloco de orégano, maconha? maconha! maconha!, o que fazer, ouviu a irmã “manda morar com o Ruy em Juiz de Fora, lá ele trabalha, estuda, isso aqui faz mal pro seu filho, faz mal pra você minha irmã” e agora que as palmas das mãos alçam-na à procura de um barulho ínfimo que seja, sempre assim: nada, abaixo da janela o beco, as mãos trêmulas afastando a cortina branca, a tarde se encerrando entre fios de alta tensão e pombos que em rebuliço vão pra longe, levantam vôo dentre os vãos do telhado imundo da Rede,

o telefone?

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