Éramos sete na brincadeira inicial: eu, João e José (os gêmeos), Inácio, Henrique e as meninas, Julia e Amanda; todos sentados pela calçada estreita do beco da caixa d’água, ao lado da mina, ouvindo o mais velho Henrique, um galalau que fazia de seus treze anos uma afronta aos nossos miúdos dez, onze. Março devia ser pelo calor, a rua estreita já se esvaziando de anteriores faróis em direção ao centro espírita, assembléia de Deus ou o São Sebastião – sete e meia, oito se tanto. Escutávamos Henrique lado a lado, atentos a proposta. “Mete sarrafo” disse ele, alongando os braços para cima e retirando a camisa branca que grudava em seu corpo, “é fácil”, completou, como se torcendo o pano ao máximo a fim de proporcionar um nó em sua ponta. A brincadeira consistia num jogo de perguntas e respostas, um de nós perguntaria qualquer coisa e à resposta lançaria pro alto a camisa enroscada dando ao vencedor o direito de sabatiná-la contra as costas dos outros colegas, inclusive o autor da pergunta, até um ponto determinado. “Eu começo” disse Julia, rebolando as pernas magrelas ao encontro de Henrique, ainda de pé; “eu começo”, repetiu. Henrique sentou-se ao meu lado, incomodavam-me as pernas agigantadas roçando-me o corpo na calçada fina. Pouco me concentrei nos olhos ávidos de Julia por trás dos óculos, sua pergunta, “quê que tem em cima das casas do beco?”; sequer me atentei à resposta de João, ou José, “antena parabólica”. “Parabólica”, resposta certa, pensei, meus olhos ainda assimilando a camisa que lançada pelas mãos de Julia ao alto, voltaram às mesmas. “Não”, ela disse, um som agudo e interrompido pela voz de Henrique, alta, “antena comum”: mete sarrafo! Corri-me descontroladamente, as pernas entrelaçando-se, ao poste que, antes determinado, era nosso porto seguro, o vergalhão de concreto em frente ao centro espírita. Chegando, assisti a tudo: Henrique recolhera do chão a camisa enroscada e a enganchou com a mão direita de maneira que a parte do pano segurada se assemelhasse a um cabo de guarda-chuva; correu como se tivesse um ponto certo a chegar, atingindo no caminho Julia na altura do cóccix, com o gomo do nó por inteiro, Amanda na nuca, uma pancada seca, o nó de lado, e Inácio no braço esquerdo – escapáramos eu e os gêmeos. E enquanto ofegantes estávamos e Henrique juntava-se a nós, ouvimos o choro das meninas, alaridos vindos da calçada à pequena distância. O galalau moveu-se até as duas, acompanhado por nossos olhos ofegantes, postando-se ao meio dos gritos, “isso não é brincadeira de menina, vai pra casa”. Não sabia para qual delas o conselho fora, mas as meninas entenderam da mesma forma, em passos lentos em direção à Sobral Pinto. “Vamos brincar de outra coisa”, disse Inácio coçando o braço esquerdo. “Pique esconde” um dos gêmeos disse, um tanto arrependido. “Ótimo, eu conto”, retrucou Henrique como contrariado; “até cem”, eu disse vendo-o no poste antes salvação, a testa encrava no antibraço direito. “Atrás daquele carro ali gente”, sussurrei, mas os gêmeos não aceitaram com as cabeças em coro, “fácil demais” contribuiu Inácio, “na casa abandonada” acrescentou. A casa abandonada tinha dono, morador futuro, pois nada tinha em abandono, estava em obras: andaimes e baldes de tinta e sacos de cimento e areia, ferramentas e nenhuma luz; entramos pela porta principal, um retângulo de compensado que figurava, e resolvemos esconder-nos ali mesmo no primeiro andar, eu atrás de uns pedaços de madeira à direita, deitado, os gêmeos agachados atrás dos sacos de cimento em direção à porta, Inácio perfilado a uma coluna grossa de concreto que ornava o lado esquerdo; nossa esperança: Henrique subiria as escadas. Aguardamos calmamente, mas à grande distância que nos separava da contagem sequer ouvimos o “cem” final. Henrique entrara a casa depois de um tempo; cauteloso mas dificultado pela luz vinda apenas da rua, não nos viu e resolveu subir ao andar de cima. Saímos em felicidade nos olhos e movimentos bruscos, risonha vitória cortada abruptamente por um estrondo na parte de cima. Cravados as vozes e corpos estávamos em quatro, os gêmeos lado a lado, eu à diagonal esquerda de um, Inácio à diagonal direita do outro; a luz da rua desenhava a porta: o último ponto de nosso pentágono irregular.