quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Verão

Um derby amarelo cuspido no chão, a cabeça do homem sentado na rodoviária – pêndulo, o tempo se fechando no pêlo d’água: a mulher limpa, pele clara, pretende sentar ao lado do homem, logo após o cigarro cuspido, mas o olha de lado e vai ao guichê de uma das empresas de transporte rodoviário; um moleque mirrado corre com um pacote de biscoitos de polvilho aberto (algumas argolas brancas caem do plástico no caminho constante trançado por pernas), rodopia ao alarido da mãe e seus calcanhares amassam um derby amarelo no chão; a atendente do Café separa a nota em melhor estado e oferece-a de troco para o motorista do ônibus que sairá em seguida, ele agradece o refrigerante com um sorriso por trás dos óculos escuros e ela vê sua camisa azul com marcas de suor nas costas indo em direção ao ônibus parado na vaga doze, desviando do homem que eminente em se levantar faz dos braços alicerce.
Nos ladrilhos, paralelepípedos sinuosos, nas terras batidas ao lado do rio, no asfalto que ferve em frente à rodoviária, no solo rugoso dos quintais, na grama das casas que as têm, o vento vem varrer os objetos soltos pelo chão: folhas, copos plásticos, papéis de bala, um gato minúsculo e desavisado.
A chave é virada na ignição roncando o motor: o motorista se posta à frente da porta de entrada do ônibus; a mulher do Café empilha paçocas na prateleira mais baixa; o moleque e a mãe formam o início da fila frente à camisa azul; a mulher clara e limpa também se encaminha para a vaga doze, mas a dois passos seu telefone celular toca e ela rodopia dando as costas para a fila, para o ônibus; o homem consegue se levantar, dá três passos e, próximo ao quarto, gira o tronco e cai estirado no chão cinza; um faxineiro de uniforme marrom, com as inscrições da prefeitura municipal em letras negras, salta o homem deitado e com a vassoura recolhe a uma pá um derby amarelo já apagado.
Com o vento, a chuva não cairá.

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