“Nascer é conjugar-se ao contrário”
para Carolina, pelo duplo desafio.
Os passos moviam-se pelos cômodos de dias quentes, cada palmo em tranqüila ocupação até chagarem a fora, percorrerem a ladeira cinza que meses antes se banhara nas águas barrentas da enchente, ladear o canteiro de frutas pelo chão, se assustarem com a cachorra de pêlo negro e poeira a se encaracolar nos troncos das árvores, pararem a ouvir o canto dos passarinhos enclausurados em pregos por cada canto de muro.
- Vocês vão ver que passarim é bicho pra ser liberto, pra ter casa, amigo, que nem gente; né não canarim?
Estávamos atentos ao trabalho do velho, todos vendo-o dias sem cessar com o Carlim, carregando o cimento, movimentando a massa; e á noite, antes de postar-se na poltrona única frente à televisão, rachando os bambus com a faca e o esmero, pregando algum pedaço de madeira noutro, desenho indecifrável. E todos ficamos boquiabertos na manhã que irrompeu clara e flamejante, no viveiro que surgia no puxadinho recém-baseado ao lado da cozinha; o quintal diminuíra mas a construção nos fazia esquecer, uma profusão de passarinhos multicoloridos, periquitos que iam e voltavam dentro da caixa grande de concreto, entravam pelos apartamentinhos de bambu no canto alto do espaço, pelas casinhas de madeira no baixo; e ajudávamos a lançar os bichos dentro do novo lar, e vimos, todos, o coleiro que ainda pequeno desprendeu-se de uma das mãos, voando o mais alto que o longe pôde alcançar.
- Deixa ele, deixa ele. Esse pensa que é mais livre que os outros mas vai voltar, vai voltar.
Ele disse, mas nem o próprio sabe se o fugitivo voltou. Entre anos ainda abastecia o viveiro, porquinhos da índia, dois patos para o poço d´água ao lado direito, mais passarinhos; mas a cama o acometeu e ele pediu que os dessem a alguém que pudesse cuidar, deixassem só uns cinco de sua preferência e dos quais poderia ainda trocar o chão da gaiola, a água, o alpiste; resolveu também reformar a casa: mais um banheiro, ampliar a cozinha, um cachorro novo e pequeno para o lugar da grande que se fora.
- Você vai, mas volta pra ver o velho, a casa, tudo. Todo mundo tem de ter gaiola nesse mundo.
Eu sabia que um dia, desses dias em que se pára, eu estaria ali. Mas não era o mesmo lugar, já que o velho não mais se levantaria para cuidar do canário, a velha não passaria um café, tiraria o pote de biscoitos de nata da última porta do armário. E ali, aqui, mesmo que não o mesmo, ainda é, apesar da cozinha ter avançado um pouco mais, do quintal quase nulo, do cachorro descomunal que choca o dorso contra o alto portão de ferro assustando o moleque (dois anos apenas) que vem se encaracolar entre minhas pernas, ainda está, ainda estou, e tudo o quanto disse, e como disser, não passa de verdade ou mentira, apenas história.
à memória de meus avôs
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