| O punho cerrado fechou os olhos azuis desviando os nós para a rua pouco iluminada, não vendo a blusa de lã cinza-já-gasto abraçar o chão de mesmo tom; dolorido, se abriu feito planta dorminhoca aos ki-chutes empoeirados dos moleques da quinta série do colégio público em divisa ao terreno baldio. | A carreira escalou narina adentro ardendo a cabeça, rodopiando os olhos; o resto esfumaçado no encosto da pia de louça verde-maçã-verde fora raspado por dedos contíguos e trêmulos e esfregados no aparelho de borrachinhas azuis. Era hora - os olhos verdes focaram de súbito o espelho retangular, sorriso aberto. |
O tempo daquele Junho era frio e seco, pelos lados da Vila vizinhos retiravam as cadeiras de plástico da beira da rua, mais pelo vento do que pelo céu nublado que abraçava as cinco horas da tarde do Sábado. Nos quintais, cachorros se recolhiam às casinhas, caixas de biscoito – teto pra frente e cobertor ao lado; as salsinhas, tomates pequenos, ondulavam.
| Maninho assistia ao Botafogo e Figueirense com os olhos quase nulos, as duas caixas do Bar da Lôra tamborilavam na testa, mas ao alarido do pai, um corpo mulato, nebuloso e gordo, sacolejando os braços e as pernas, quase gritou qualquer coisa | - passa aê bróder. Passa aê bróder. Passa aê porra. Passa, aê. Valeu, valeu. Ahn? Deixa mais um pouco só |
- Não, vamo fazê a parada sim. Quê? A Marina o quê? Ce ta onde Celso? Hein? Ah, ta dirigindo...então fala rápido pô; a Marina não quer? Ô Celso, então você vem e depois tu pega ela. É, ué. Ela não vai sair hoje? então, chega aqui, a gente sai umas onze, onze e meia e pega ela lá; não cara, eu vou de carro, tá tranqüilo, beleza então?, você vem? Não, a gente deixa o Michel e a Dani lá e depois pega ela, beleza? Então valeu, um abraço.
ADIDAS
MADE IN CHINA
BR US UK FR
42 10 91/2 44
Três amortecedores e o pardo solado
sinuoso pousaram no rosto branco,
barba por fazer, sentindo amena
resistência da carne. Outro pouso,
queda brusca, mais dois, mais três
e a massa cor de maravilha
dimensionando o céu
A barriga do bigodudo sacolejou conjuntamente ao marrom da sacola de pães, o embrulho foi sugado pelas unhas negras, escondido ao lado do cotovelo nu às seis da manhã fria; o movimento era fraco, algumas senhoras antecipando o café e, virtude da missa das sete, três garotos e um casal voltando do baile funk. Os pés negros na sola imbicaram, quase largando as havaianas no caminho, pelo beco ao lado da loja de materiais elétricos, promoções, pagamento em três vezes, telefone três quatro meia dois zero zero dois nove; as costas da camisa branca sem estampas esmurraram o muro da loja em construção, dedos ágeis vomitaram da sacola dois pães com manteiga pelo chão, dentes cerraram a massa, a manteiga rebolando garganta a baixo.
| - Como é que é bróder? Ta querendo o que aí? - Responde mermão - Pera aí cara, pera aí. - Ai!pera aê... - Pára com isso rapá! Ta maluco! - Putaquepariu. | - ( ) - ( ) - Cala a boca mermão! Cala a boca filhadaputa! - ( ) - ( ) - Bora, bora, bora! |
Emanuel, letras em grafia vermelha arredondada, triângulo azul-escuro ao lado esquerdo do peito; o pano azul até os joelhos morenos, Emanuel em branco, letra de fôrma – os olhos verdes passeavam pelo solado amarelo do pátio: a tia da cantina, o coque branco livrando o suor da nuca, serve um líquido laranja em mini-copos plásticos; a sala da sétima série aberta - a sala da sétima série aberta, a janela contemplando o terreno baldio. Correm os pés no ki-chute preto, nós e laços à altura da canela alcançavam o interior da sala, três movimentos: ponta do esquerdo no tampo da primeira carteira da fila da professora; meia sola do direito no parapeito, duas solas no barro claro do lado de fora – seguem correndo imprecisas (as mãos arrancando a camisa, os companheiros atrás) até chegarem à entrada da rua da Carroça, após a linha da Rede, no recanto de marias dormideiras lado a lado com o altar da Nossa Senhora de macumba.
| Maninho desceu as escadarias do REX cauteloso, o som, as cervejas, a coca, os lábios da morena indefinível de pêagá em alguma faixa do nome com ípsilon no final rodopiavam a visão; atrás Celso, Marina, Michel, Dani, Cláudio que chegara do Rio há pouco, outra, agora loira, indecifrável – o Adidas preto vacilava os degraus cinzas. Olhou-se no espelho anterior ao hall de entrada: a blusa de lã vinho amarfanhada, os caracóis dos cabelos para o alto, a faixa que os sustentava quase à testa, olhos vermelhos. Na rua, a madrugada com cheiro de ontem, acre perfume no muro da praça, dobrou a esquina da sorveteria e viu um vulto cinza balançar o Palio vinho, Além Paraíba- MG GUS- 4677 | As mãos sujas fecharam o zíper, na boca o gosto doce do éter (lábios dormentes), os olhos insinuantes pela parede da fábrica desativada – o chapisco do muro em cinza claro-escuro, desenho irregular; a parte amarela céu acima descascada, marcas de infiltração, pichação SAARA. As casas à esquerda pareciam iguais, retângulos a pouca luz; as havaianas de tiras e solados azuis mastigavam os paralelepípedos irregulares, carros, outros carros, muitos carros, um casal de namorados, o som do baile estremecendo o tempo frio, dois moleques dividindo um baseado enrolado em conta de telefone – RUA DR SOBRAL PINTO 378 : Júlio se demorou sentindo os lábios flamados pelo papel, quatro mãos tentavam lhe arrancar o cigarro. Levantou-se enfim, apoiando as costas nas pedras da murada, sentindo nos ralos cabelos as plantas acima – o relógio digital por dentro do carro, 04:31. |
Júlio, não mais o nome na camisa e nos shorts – sétima séria, carteirinha azul marinho (Júlio de Almeida Lima/ FILAÇÃO: José Lima; Márcia de Almeida Lima), colocou os pés na calçada da Ilha, um rápido movimento de olhos – a Rodoviária o muro do Tênis – e se embestou a ladear o albergue, os terrenos baldios e empoeirados, lado a lado, as ex-pontes se desenhando de cima pra baixo; juntando-se em seguida, mesmo que de longe, aos moleques da quinta série que, fugidios, esmagavam plantas logo após a linha do trem. Seus olhos azuis replicaram rapidamente aos primeiros sinais da chuva, vendo logo após um moleque aloirado chutando a santa do altar destinado a despachos, quebrando-a contra o chão – os moleques se esbaforindo rua da Carroça, Sete, Primeiro de Maio.
| Maninho socou as mãos espalmadas na blusa cinza e rota, chocando as costas do quase-ladrão no muro, deferindo o primeiro soco com raiva, diretamente nos olhos azuis vermelhos vermelhos azuis (chão para o céu), marretou a sola do tênis ao rosto do sujeito – sete vezes, até ser puxado por Celso. | Júlio observou a pequena fresta na janela do lado do motorista, o relógio digital, o éter, a maconha, hipnotizavam; quase equilibrado tentou enfiar as mãos no interior do carro sem contar com o limiar do intervalo, com os fios despregando-se da manga longa da blusa puída, se agarrando ao vidro – com ódio, sacudiu a porta parando apenas com um empurrão. |
O tempo daquele Março era seco e úmido, pelos lados da Vila, Caxias, última Ilha, vizinhos retiravam as roupas do varal pelos pingos de chuva derramados do céu negro que abraçava as onze e meia da sexta-feira. Dobrando a rua Sete, dois meninos, o de shorts azuis e olhos verdes, e o de olhos azuis e jeans, desembestavam-se pela calçada estreita da quadra da Rede – um pela chuva, outro por uma santa. À bifurcação da Sobral Pinto, partiram à direita em direção à Praça da Bandeira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário