quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Diário

O dia das pêras
é o seu apodrecimento.
(Ferreira Gullar)

Trabalhava concomitantemente aos sons da rua – liquidificante turba de passos e vozes, ringtones, buzinas e sirenes em nula sinfonia - empacotando batatas palha, da onda, biscoitos e latas de derivado conteúdo; contando os centavos do troco, as horas, desembaraçando os cabelos e notas encaracolados no caixa, os dedos tarântula esperta a buscar chicletes, tatear de cor cigarros a varejo, cartões telefônicos; fumando escondida ao lado do forno de pães (nebulosa): o suor deslizando-a na fronte, empapuçando o pescoço, jogando-se seios abaixo.
E ainda era domingo. E sempre era domingo, segunda, terça, dia; a avenida Rio Branco à inclinação direita do pescoço, vazia, solapada pelo sol. Nas mãos um jabuti, seu clã na outra atendente, no caixa, na faca lenta do nordestino semi-morto a rasgar o papel-filme.
(Ela embala frangoassados, fecha quentinhas)
E o tempo.
Os cotovelos dormitando no balcão gorduroso, os braços da colega se firmando na comanda de papel, nas coxas finas (1 coca 2 pastéis); e o tempo no encrostado caldo do nhoque, na face rugosa do feijão tropeiro. Lá fora a tarde pelejando a se fechar.

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