segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Dois tempos

O punho cerrado fechou os olhos azuis desviando os nós para a rua pouco iluminada, não vendo a blusa de lã cinza-já-gasto abraçar o chão de mesmo tom; dolorido, se abriu feito planta dorminhoca aos ki-chutes empoeirados dos moleques da quinta série do colégio público em divisa ao terreno baldio.

A carreira escalou narina adentro ardendo a cabeça, rodopiando os olhos; o resto esfumaçado no encosto da pia de louça verde-maçã-verde fora raspado por dedos contíguos e trêmulos e esfregados no aparelho de borrachinhas azuis. Era hora - os olhos verdes focaram de súbito o espelho retangular, sorriso aberto.

O tempo daquele Junho era frio e seco, pelos lados da Vila vizinhos retiravam as cadeiras de plástico da beira da rua, mais pelo vento do que pelo céu nublado que abraçava as cinco horas da tarde do Sábado. Nos quintais, cachorros se recolhiam às casinhas, caixas de biscoito – teto pra frente e cobertor ao lado; as salsinhas, tomates pequenos, ondulavam.

Maninho assistia ao Botafogo e Figueirense com os olhos quase nulos, as duas caixas do Bar da Lôra tamborilavam na testa, mas ao alarido do pai, um corpo mulato, nebuloso e gordo, sacolejando os braços e as pernas, quase gritou qualquer coisa

- passa aê bróder. Passa aê bróder. Passa aê porra. Passa, aê. Valeu, valeu. Ahn? Deixa mais um pouco só

- Não, vamo fazê a parada sim. Quê? A Marina o quê? Ce ta onde Celso? Hein? Ah, ta dirigindo...então fala rápido pô; a Marina não quer? Ô Celso, então você vem e depois tu pega ela. É, ué. Ela não vai sair hoje? então, chega aqui, a gente sai umas onze, onze e meia e pega ela lá; não cara, eu vou de carro, tá tranqüilo, beleza então?, você vem? Não, a gente deixa o Michel e a Dani lá e depois pega ela, beleza? Então valeu, um abraço.

ADIDAS

MADE IN CHINA

BR US UK FR

42 10 91/2 44

Três amortecedores e o pardo solado

sinuoso pousaram no rosto branco,

barba por fazer, sentindo amena

resistência da carne. Outro pouso,

queda brusca, mais dois, mais três

e a massa cor de maravilha

dimensionando o céu

A barriga do bigodudo sacolejou conjuntamente ao marrom da sacola de pães, o embrulho foi sugado pelas unhas negras, escondido ao lado do cotovelo nu às seis da manhã fria; o movimento era fraco, algumas senhoras antecipando o café e, virtude da missa das sete, três garotos e um casal voltando do baile funk. Os pés negros na sola imbicaram, quase largando as havaianas no caminho, pelo beco ao lado da loja de materiais elétricos, promoções, pagamento em três vezes, telefone três quatro meia dois zero zero dois nove; as costas da camisa branca sem estampas esmurraram o muro da loja em construção, dedos ágeis vomitaram da sacola dois pães com manteiga pelo chão, dentes cerraram a massa, a manteiga rebolando garganta a baixo.

- Como é que é bróder? Ta querendo o que aí?

- Responde mermão

- Pera aí cara, pera aí.

- Ai!pera aê...

- Pára com isso rapá! Ta maluco!

- Putaquepariu.

- ( )

- ( )

- Cala a boca mermão! Cala a boca filhadaputa!

- ( )

- ( )

- Bora, bora, bora!

Emanuel, letras em grafia vermelha arredondada, triângulo azul-escuro ao lado esquerdo do peito; o pano azul até os joelhos morenos, Emanuel em branco, letra de fôrma – os olhos verdes passeavam pelo solado amarelo do pátio: a tia da cantina, o coque branco livrando o suor da nuca, serve um líquido laranja em mini-copos plásticos; a sala da sétima série aberta - a sala da sétima série aberta, a janela contemplando o terreno baldio. Correm os pés no ki-chute preto, nós e laços à altura da canela alcançavam o interior da sala, três movimentos: ponta do esquerdo no tampo da primeira carteira da fila da professora; meia sola do direito no parapeito, duas solas no barro claro do lado de fora – seguem correndo imprecisas (as mãos arrancando a camisa, os companheiros atrás) até chegarem à entrada da rua da Carroça, após a linha da Rede, no recanto de marias dormideiras lado a lado com o altar da Nossa Senhora de macumba.

Maninho desceu as escadarias do REX cauteloso, o som, as cervejas, a coca, os lábios da morena indefinível de pêagá em alguma faixa do nome com ípsilon no final rodopiavam a visão; atrás Celso, Marina, Michel, Dani, Cláudio que chegara do Rio há pouco, outra, agora loira, indecifrável – o Adidas preto vacilava os degraus cinzas. Olhou-se no espelho anterior ao hall de entrada: a blusa de lã vinho amarfanhada, os caracóis dos cabelos para o alto, a faixa que os sustentava quase à testa, olhos vermelhos. Na rua, a madrugada com cheiro de ontem, acre perfume no muro da praça, dobrou a esquina da sorveteria e viu um vulto cinza balançar o Palio vinho,

Além Paraíba- MG

GUS- 4677

As mãos sujas fecharam o zíper, na boca o gosto doce do éter (lábios dormentes), os olhos insinuantes pela parede da fábrica desativada – o chapisco do muro em cinza claro-escuro, desenho irregular; a parte amarela céu acima descascada, marcas de infiltração, pichação SAARA. As casas à esquerda pareciam iguais, retângulos a pouca luz; as havaianas de tiras e solados azuis mastigavam os paralelepípedos irregulares, carros, outros carros, muitos carros, um casal de namorados, o som do baile estremecendo o tempo frio, dois moleques dividindo um baseado enrolado em conta de telefone – RUA DR SOBRAL PINTO 378 : Júlio se demorou sentindo os lábios flamados pelo papel, quatro mãos tentavam lhe arrancar o cigarro. Levantou-se enfim, apoiando as costas nas pedras da murada, sentindo nos ralos cabelos as plantas acima – o relógio digital por dentro do carro, 04:31.

Júlio, não mais o nome na camisa e nos shorts – sétima séria, carteirinha azul marinho (Júlio de Almeida Lima/ FILAÇÃO: José Lima; Márcia de Almeida Lima), colocou os pés na calçada da Ilha, um rápido movimento de olhos – a Rodoviária o muro do Tênis – e se embestou a ladear o albergue, os terrenos baldios e empoeirados, lado a lado, as ex-pontes se desenhando de cima pra baixo; juntando-se em seguida, mesmo que de longe, aos moleques da quinta série que, fugidios, esmagavam plantas logo após a linha do trem. Seus olhos azuis replicaram rapidamente aos primeiros sinais da chuva, vendo logo após um moleque aloirado chutando a santa do altar destinado a despachos, quebrando-a contra o chão – os moleques se esbaforindo rua da Carroça, Sete, Primeiro de Maio.

Maninho socou as mãos espalmadas na blusa cinza e rota, chocando as costas do quase-ladrão no muro, deferindo o primeiro soco com raiva, diretamente nos olhos azuis vermelhos vermelhos azuis (chão para o céu), marretou a sola do tênis ao rosto do sujeito – sete vezes, até ser puxado por Celso.

Júlio observou a pequena fresta na janela do lado do motorista, o relógio digital, o éter, a maconha, hipnotizavam; quase equilibrado tentou enfiar as mãos no interior do carro sem contar com o limiar do intervalo, com os fios despregando-se da manga longa da blusa puída, se agarrando ao vidro – com ódio, sacudiu a porta parando apenas com um empurrão.

O tempo daquele Março era seco e úmido, pelos lados da Vila, Caxias, última Ilha, vizinhos retiravam as roupas do varal pelos pingos de chuva derramados do céu negro que abraçava as onze e meia da sexta-feira. Dobrando a rua Sete, dois meninos, o de shorts azuis e olhos verdes, e o de olhos azuis e jeans, desembestavam-se pela calçada estreita da quadra da Rede – um pela chuva, outro por uma santa. À bifurcação da Sobral Pinto, partiram à direita em direção à Praça da Bandeira.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Rosa

O mundo onde nós somos, entre muros, na manhã que raia logo ao lado não percebendo que o tempo interno não se molda em barulhos, sons que dizem já é hora; pois hora agora, sentir que o clima aqui é frio e confortável e não há determinado momento mas interminável instante. Se os dedos percorrem dois corpos e equilíbrio, idéia, já não importa, é porque não está, abriu-se o possível. O que saber do tal sentimento senão apelidos; e esses são códigos, ínfimos, peculiaridades exageradas que falsamente representam o todo, e se este inexistente. Não acendamos a luz da porta pois o muro acaba, e ainda há falta de revés, desconstruir-se construindo, procurar espaços, atá-los. Por aqui, só o mundo, apenas esse, é nosso.

Morada

“Nascer é conjugar-se ao contrário”

para Carolina, pelo duplo desafio.

Os passos moviam-se pelos cômodos de dias quentes, cada palmo em tranqüila ocupação até chagarem a fora, percorrerem a ladeira cinza que meses antes se banhara nas águas barrentas da enchente, ladear o canteiro de frutas pelo chão, se assustarem com a cachorra de pêlo negro e poeira a se encaracolar nos troncos das árvores, pararem a ouvir o canto dos passarinhos enclausurados em pregos por cada canto de muro.
- Vocês vão ver que passarim é bicho pra ser liberto, pra ter casa, amigo, que nem gente; né não canarim?
Estávamos atentos ao trabalho do velho, todos vendo-o dias sem cessar com o Carlim, carregando o cimento, movimentando a massa; e á noite, antes de postar-se na poltrona única frente à televisão, rachando os bambus com a faca e o esmero, pregando algum pedaço de madeira noutro, desenho indecifrável. E todos ficamos boquiabertos na manhã que irrompeu clara e flamejante, no viveiro que surgia no puxadinho recém-baseado ao lado da cozinha; o quintal diminuíra mas a construção nos fazia esquecer, uma profusão de passarinhos multicoloridos, periquitos que iam e voltavam dentro da caixa grande de concreto, entravam pelos apartamentinhos de bambu no canto alto do espaço, pelas casinhas de madeira no baixo; e ajudávamos a lançar os bichos dentro do novo lar, e vimos, todos, o coleiro que ainda pequeno desprendeu-se de uma das mãos, voando o mais alto que o longe pôde alcançar.
- Deixa ele, deixa ele. Esse pensa que é mais livre que os outros mas vai voltar, vai voltar.
Ele disse, mas nem o próprio sabe se o fugitivo voltou. Entre anos ainda abastecia o viveiro, porquinhos da índia, dois patos para o poço d´água ao lado direito, mais passarinhos; mas a cama o acometeu e ele pediu que os dessem a alguém que pudesse cuidar, deixassem só uns cinco de sua preferência e dos quais poderia ainda trocar o chão da gaiola, a água, o alpiste; resolveu também reformar a casa: mais um banheiro, ampliar a cozinha, um cachorro novo e pequeno para o lugar da grande que se fora.
- Você vai, mas volta pra ver o velho, a casa, tudo. Todo mundo tem de ter gaiola nesse mundo.
Eu sabia que um dia, desses dias em que se pára, eu estaria ali. Mas não era o mesmo lugar, já que o velho não mais se levantaria para cuidar do canário, a velha não passaria um café, tiraria o pote de biscoitos de nata da última porta do armário. E ali, aqui, mesmo que não o mesmo, ainda é, apesar da cozinha ter avançado um pouco mais, do quintal quase nulo, do cachorro descomunal que choca o dorso contra o alto portão de ferro assustando o moleque (dois anos apenas) que vem se encaracolar entre minhas pernas, ainda está, ainda estou, e tudo o quanto disse, e como disser, não passa de verdade ou mentira, apenas história.

à memória de meus avôs

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Verão

Um derby amarelo cuspido no chão, a cabeça do homem sentado na rodoviária – pêndulo, o tempo se fechando no pêlo d’água: a mulher limpa, pele clara, pretende sentar ao lado do homem, logo após o cigarro cuspido, mas o olha de lado e vai ao guichê de uma das empresas de transporte rodoviário; um moleque mirrado corre com um pacote de biscoitos de polvilho aberto (algumas argolas brancas caem do plástico no caminho constante trançado por pernas), rodopia ao alarido da mãe e seus calcanhares amassam um derby amarelo no chão; a atendente do Café separa a nota em melhor estado e oferece-a de troco para o motorista do ônibus que sairá em seguida, ele agradece o refrigerante com um sorriso por trás dos óculos escuros e ela vê sua camisa azul com marcas de suor nas costas indo em direção ao ônibus parado na vaga doze, desviando do homem que eminente em se levantar faz dos braços alicerce.
Nos ladrilhos, paralelepípedos sinuosos, nas terras batidas ao lado do rio, no asfalto que ferve em frente à rodoviária, no solo rugoso dos quintais, na grama das casas que as têm, o vento vem varrer os objetos soltos pelo chão: folhas, copos plásticos, papéis de bala, um gato minúsculo e desavisado.
A chave é virada na ignição roncando o motor: o motorista se posta à frente da porta de entrada do ônibus; a mulher do Café empilha paçocas na prateleira mais baixa; o moleque e a mãe formam o início da fila frente à camisa azul; a mulher clara e limpa também se encaminha para a vaga doze, mas a dois passos seu telefone celular toca e ela rodopia dando as costas para a fila, para o ônibus; o homem consegue se levantar, dá três passos e, próximo ao quarto, gira o tronco e cai estirado no chão cinza; um faxineiro de uniforme marrom, com as inscrições da prefeitura municipal em letras negras, salta o homem deitado e com a vassoura recolhe a uma pá um derby amarelo já apagado.
Com o vento, a chuva não cairá.

Conjugado

São dois pontos: o quarto e o resto. No quarto passeia os olhos nas cartas muitas, firma-os na letra miúda e curvilínea, tudo feito rodeada pela pele alva do lençol, a luminária acesa. No resto, tateia as oito gavetas da cômoda ao lado, corre pelas paredes o som da televisão até serem encontrados os álbuns, o papelão já gasto, os plásticos portadores amassados: todos eles têm um sorriso na capa, um dia de sol. O encontro é entre o vão dos pontos, gélidas estão as mãos, e o fim é um eterno e minúsculo beijo de olhos abertos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Diário

O dia das pêras
é o seu apodrecimento.
(Ferreira Gullar)

Trabalhava concomitantemente aos sons da rua – liquidificante turba de passos e vozes, ringtones, buzinas e sirenes em nula sinfonia - empacotando batatas palha, da onda, biscoitos e latas de derivado conteúdo; contando os centavos do troco, as horas, desembaraçando os cabelos e notas encaracolados no caixa, os dedos tarântula esperta a buscar chicletes, tatear de cor cigarros a varejo, cartões telefônicos; fumando escondida ao lado do forno de pães (nebulosa): o suor deslizando-a na fronte, empapuçando o pescoço, jogando-se seios abaixo.
E ainda era domingo. E sempre era domingo, segunda, terça, dia; a avenida Rio Branco à inclinação direita do pescoço, vazia, solapada pelo sol. Nas mãos um jabuti, seu clã na outra atendente, no caixa, na faca lenta do nordestino semi-morto a rasgar o papel-filme.
(Ela embala frangoassados, fecha quentinhas)
E o tempo.
Os cotovelos dormitando no balcão gorduroso, os braços da colega se firmando na comanda de papel, nas coxas finas (1 coca 2 pastéis); e o tempo no encrostado caldo do nhoque, na face rugosa do feijão tropeiro. Lá fora a tarde pelejando a se fechar.