para Laura e Patrícia
Guilherme a beijou na fronte, seguiram os lábios, duas camadas de pele fina em vermelho claro, semi-doces, frios como ponta de garfo, acolhedores em demorado silêncio. Ainda os narizes roçaram, as maçãs do rosto comungavam no calor das respirações, e as mãos apertaram-se levemente antes dele se direcionar a porta. Ela entrou no quarto, tirou a blusa e viu no espelho os cabelos castanhos e ondulados a cobrir os seios médios, rijos, ligou o som numa bossa-nova baixinha e foi guardar a camiseta preta junto com as outras no armário, retirou da parte dos travesseiros a camisa branca de malha, dele, e deitando em concha por cima do edredom sequer percebeu as duas quedas de luz subseqüentes, a faísca pequena na tomada do stereo à volta da eletricidade.
A manhã rompeu como Guilherme pelos corredores do pronto-socorro, confuso, os óculos desajeitados. Seu corpo só parou por dois enfermeiros que pediam calma, falavam não, informações a ele imperceptíveis. Por dentro do janelão de vidro, envolta num cheiro acre, estava ela, desenhada em ataduras, os olhos semi-cerrados.
' Passaram-se quinze dias desde a vista, mas ele não sabia do tempo. Quando enclausurado em si o tempo é quando e onde lugar que não existe. Guilherme já divisava os tacos de seu chão, os sabia quantos, por quê, diferentemente um dos outros; a cama era não mais um pouso mas paradeiro, estável, recorrente, e o teto, gélido, parecia o contemplar com ironia no olho único. Não mais sentia temperaturas ou cheiros, ignorara o celular ao fundo de uma gaveta, e quando este gritava as almofadas o abraçavam pelo rosto, os olhos maquinavam paisagem qualquer.
Mas a qualquer dia as pernas produziriam movimento involuntário e o corpo erguer-se-ia num espasmo. Guilherme levantou-se, vestiu roupas, escovou os dentes e sem perceber limpava os óculos dentro do carro. O veículo tinha destino certo, a outra ponta da cidade, e por sinais vagava intranqüilo, lento. Do momento em que os faróis iluminavam a álea escura ao ponto em que seus olhos divisaram a porta trancada não sentira nada, talvez frio, mas pouco.
- Nós vamos sair hoje.
Disse isso antes mesmo de entrar no quarto, de vê-la encolhida na cama, o rosto como que mascado, o nariz levemente torto, os cabelos nulos; antes mesmo de a beijar os lábios e em seqüência a fronte, de sentir dela um calor por vezes não contemplado, nos olhos. Guilherme sorriu, um movimento curto, desacostumado pelo tempo, virou-lhe as costas e abriu as portas do armário, e já com o ato em mente contemplou a extrema quantidade de roupas, camisetas pretas e brancas, saias grandes, pequenos casacos de crochê.
- Nós vamos sair hoje.
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