Dois moleques jogando bola á frente do muro cinza, alto, shorts com listras brancas nas laterais, camisas amarradas na cabeça – as havaianas gastas demarcam o gol, fazem a trave; o travessão imaginário – o quanto o goleiro pode alcançar num salto médio com os braços esticados. Enquanto o negro prepara-se para bater o pênalti o branco bate palmas olhando-o atentamente. “Júnior o camisa cinco do Flamengo”, o moleque negro soca a ponta do pé na bola oval dente-de-leite, a ovesfera sai reta, sêca, esmurra o joelho do branco que cai no chão de areia espinhoso após um salto semi-lateral. “Defendeu Zetti”, o moleque branco se afoba em levantar-se afastando a areia do corpo, olhando o companheiro que, derrotado, procura a bola. “Cadê?” e os dois se entreolham, enxugam o suor dos peitos e das testas, os pés afoguentados pelo sol que a bananeira una não consegue segurar.
O caminho é o mesmo, sempre, morro São Sebastião, no fundo à direita, o muro cinza e alto com espécies de repuxos quadrados de concreto, à frente os barranco-quintais das casas ao lado da subida. Se fosse abaixo dificilmente reaveriam a bola, presa em mamoeiros ainda novos, troncos decepados de bananeiras podres; era se embrenhar pela lama úmida e marrom da lateral direita, descer pela floresta de mangueiras que rodopiavam em dia de chuva forte, procurar a cor parda da borracha no desenho escuro do matagal. “Bora, pega o chinelo aí”.
Os dois, tateando com o solado azul claro o chão escorregadio (tinha chovido, Janeiro), passaram pelo barraco de compensado, quase porteira do matagal, fechado, nem a fumaça habitual do fogueirinho em lata de tinta Suvinil, tudo um deserto, encaminhando-se para as folhas longuilíneas de verde óbvio, os troncos abrutalhados das mangueiras. Chegaram ao fim do curto caminho após poucos passos, nada da bola apesar dos olhos ávidos a cada canto. Para baixo o barranco rugoso ameaçava tragá-los pela trilha de folhas e mangas por apodrecer, círculos de mosquitos, formigas bundudas, garrafas brancas de iogurte ALÉM, uma caixa de boneca com o símbolo da estrela apontando o céu; a casa em formato de trem, enorme do passeio da Sobral Pinto, parecia um brinquedo vista tão de cima.
Um colerim ainda tapeava o canto quando decidiram voltar, chateados por não encontrar a bola, e o negro nem ouviu o estalado tombo do amigo no chão escorregadio do caminho de volta, sequer lhe deu a mão para levantar, antes gritou “ali” e procurou descer o barranco com cautela, pé direito à frente, mão espalmada como apoio. O branco levantou do chão dolorido sacudindo os pedaços de folha sêca do peito magro, hesitando a descida do amigo que virava o pescoço à esquerda e para cima dizendo um “achei” entrecortado pelo sinal da Rede, cheio de cuidados para não escorregar. “Vem”, o negro movimentava o braço esquerdo, os olhos arregalados de quem descobrira um presente, e o branco abraçou com os dedos das mãos os chinelos utilizando-os como apoio, e ia descendo o barranco de costas pro céu com medo de ver o chão mais de perto.
Cada moleque descia à sua maneira, o branco olhava fixamente o marrom da parede escalada ao inverso, por vezes apertava os olhos para espantar o arrependimento. Já o negro, que concentrava o temor nos joelhos, tateava com o chinelo esquerdo bamboleando a planície semi-segura próxima à réstia parda, talvez-bola, por entre o amontoado de folhas secas. E se ajudavam,o branco sentira apoio nos braços finos do negro que enlaçavam suas pernas, teimosas em arranhar o barranco, o negro ouviu do amigo a frase como sorriso, “a bola ali olha”, e quatro braços vasculhavam as folhas a revelar o todo da face parda da bola que não a era.
Uma face de homem, barba por fazer, olhos semi-abertos congelados no sol a pino de um início de tarde do primeiro mês.
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