Se vem aqui é por algum motivo, um recado, desejo.
A fumaça azulada escala o vidro fosco da janela, encontra no basculante escotilha, se perde pelo céu sexto andar a cima. A casa está posta, a mesa-tampo-de-vidro ladeada de cadeiras, sofá amarelo abraçando a colcha de retalhos, TV cega, som semi-mudo sussurrando. Se está no centro ou de lado, a sala, a luz, ele, tanto faz; nada a saber de nada e a escuridão a insistir entrada rompendo o dia.
Se, é por nada, coisa alguma. Ainda estou de fora.
PLUMA
o contorno da mulher, lado esquerdo, na câmera de segurança, a bolsa suspensa no abismo do ombro, sai do vídeo como onda calma, a mão espalmada pede licença à porta de madeira número seis. Dos olhos fixos (603) o branco se confunde à porta; o corpo a seguir – irmão de cor da campainha. (A ponta dos dedos não hesitam) e a entrada é bravia, da voz a tempestade; há tempos não se formavam nuvens, por vezes a chuva cai. Num festival de braços, esquadros, tombos prováveis, dois corpos são um só e o vazio estampa as paredes claras, o tampo-penduricalho-pizza-promoção da geladeira alva, o silencioso flamejante olho do teto recém-aceso.
De três duas você perde
Todas você perde
EU VIM AQUI PRA
Do lado de fora um janelão de vidro fosco, único, mal visto por andares acima, opostos. Descortinado. O chão traçado por roupas esbugalhadas, calças jeans, blusa amarela, blusa negra, meias, sandálias, tênis, um cordão de ouro – trapezista metade de um sol.
PEDRA
indicador, dedo médio e polegar em comunidade enterrando a guimba na cinza, a mão direita vasculhando outro maço na mochila, os olhos surpresos, a boca ruminando réstias de sonho. Indicador, dedo médio, polegar e todos os outros na maçaneta, festival de silêncios nos olhos e nos corpos, cada traço singular a outro. O corpo branco que descobrira descobriria o amarelo tossindo a procurar assunto cada vez mais nulo. Sem braços nem pernas nem sexo mas a forma ilógica de dois corpos num só, proclamações abafadas, intervalos superados no paladar.
ligação dupla
instável
metil-etil
A CULPA FOI MINHA
Se viesse aqui me assustaria
O teto claro e bonito com a luz no fundo de tudo, imutável. O inferno do repetido, a dor do mínimo toque mínimo, impossível.
Se fosse lá não iria por vontade