quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Em antes

Era o disco da capa branca, os escritos em preto e vermelho, a guitarra, som fino, ecoando pelo cubículo, luz nenhuma, só as pontas dos cigarros acesos. Sentaria se houvesse espaço entre o som e o sofá negro pela noite, time is like a broken watch, mão qualquer toca o cinzeiro branco de porcelana roubado num dia chuvoso em bar de esquina, PODERIA VIR AQUI PRA CIMA, sentiu alguém afastar as mechas sobre o olho, a voz dele é boa, parece cantor de ópera, a banda é boa, amanhã teria de acordar cedo, prova, trabalho, DEVERIA SABER, acende a luz, os contornos se abraçavam na palidez amena da lua cheia, deixa como está. Resolveu irromper, subir, por fim, TALVEZ, com o cigarro quase guimba entre os dentes, as pernas borboletinha tá na cozinha fazendo chocolate para a madrinha, os cabelos roçavam a nuca, AGORA.

Agora,

Ainda não.

Sim.

Não.

A língua se encaracolou pelo lóbulo direito, as mãos na altura da barriga. TE AMO. TE ADORO. ODEIO SEU CAFÉ. ADORO TEU JEITO DE SER SEM SER. CONTINUA SENDO.
Os dentes se chocaram, riram.

- Que foi?

- Nada, você não sabe.

Apagaram os cigarros no chão errando o cinzeiro. A madrugada arrombando o céu.

Todos os mistérios movem-se pelo sol

domingo, 28 de outubro de 2007

Episódio um.

Dois moleques jogando bola á frente do muro cinza, alto, shorts com listras brancas nas laterais, camisas amarradas na cabeça – as havaianas gastas demarcam o gol, fazem a trave; o travessão imaginário – o quanto o goleiro pode alcançar num salto médio com os braços esticados. Enquanto o negro prepara-se para bater o pênalti o branco bate palmas olhando-o atentamente. “Júnior o camisa cinco do Flamengo”, o moleque negro soca a ponta do pé na bola oval dente-de-leite, a ovesfera sai reta, sêca, esmurra o joelho do branco que cai no chão de areia espinhoso após um salto semi-lateral. “Defendeu Zetti”, o moleque branco se afoba em levantar-se afastando a areia do corpo, olhando o companheiro que, derrotado, procura a bola. “Cadê?” e os dois se entreolham, enxugam o suor dos peitos e das testas, os pés afoguentados pelo sol que a bananeira una não consegue segurar.
O caminho é o mesmo, sempre, morro São Sebastião, no fundo à direita, o muro cinza e alto com espécies de repuxos quadrados de concreto, à frente os barranco-quintais das casas ao lado da subida. Se fosse abaixo dificilmente reaveriam a bola, presa em mamoeiros ainda novos, troncos decepados de bananeiras podres; era se embrenhar pela lama úmida e marrom da lateral direita, descer pela floresta de mangueiras que rodopiavam em dia de chuva forte, procurar a cor parda da borracha no desenho escuro do matagal. “Bora, pega o chinelo aí”.
Os dois, tateando com o solado azul claro o chão escorregadio (tinha chovido, Janeiro), passaram pelo barraco de compensado, quase porteira do matagal, fechado, nem a fumaça habitual do fogueirinho em lata de tinta Suvinil, tudo um deserto, encaminhando-se para as folhas longuilíneas de verde óbvio, os troncos abrutalhados das mangueiras. Chegaram ao fim do curto caminho após poucos passos, nada da bola apesar dos olhos ávidos a cada canto. Para baixo o barranco rugoso ameaçava tragá-los pela trilha de folhas e mangas por apodrecer, círculos de mosquitos, formigas bundudas, garrafas brancas de iogurte ALÉM, uma caixa de boneca com o símbolo da estrela apontando o céu; a casa em formato de trem, enorme do passeio da Sobral Pinto, parecia um brinquedo vista tão de cima.
Um colerim ainda tapeava o canto quando decidiram voltar, chateados por não encontrar a bola, e o negro nem ouviu o estalado tombo do amigo no chão escorregadio do caminho de volta, sequer lhe deu a mão para levantar, antes gritou “ali” e procurou descer o barranco com cautela, pé direito à frente, mão espalmada como apoio. O branco levantou do chão dolorido sacudindo os pedaços de folha sêca do peito magro, hesitando a descida do amigo que virava o pescoço à esquerda e para cima dizendo um “achei” entrecortado pelo sinal da Rede, cheio de cuidados para não escorregar. “Vem”, o negro movimentava o braço esquerdo, os olhos arregalados de quem descobrira um presente, e o branco abraçou com os dedos das mãos os chinelos utilizando-os como apoio, e ia descendo o barranco de costas pro céu com medo de ver o chão mais de perto.
Cada moleque descia à sua maneira, o branco olhava fixamente o marrom da parede escalada ao inverso, por vezes apertava os olhos para espantar o arrependimento. Já o negro, que concentrava o temor nos joelhos, tateava com o chinelo esquerdo bamboleando a planície semi-segura próxima à réstia parda, talvez-bola, por entre o amontoado de folhas secas. E se ajudavam,o branco sentira apoio nos braços finos do negro que enlaçavam suas pernas, teimosas em arranhar o barranco, o negro ouviu do amigo a frase como sorriso, “a bola ali olha”, e quatro braços vasculhavam as folhas a revelar o todo da face parda da bola que não a era.

Uma face de homem, barba por fazer, olhos semi-abertos congelados no sol a pino de um início de tarde do primeiro mês.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Outra história.

para Laura e Patrícia

Guilherme a beijou na fronte, seguiram os lábios, duas camadas de pele fina em vermelho claro, semi-doces, frios como ponta de garfo, acolhedores em demorado silêncio. Ainda os narizes roçaram, as maçãs do rosto comungavam no calor das respirações, e as mãos apertaram-se levemente antes dele se direcionar a porta. Ela entrou no quarto, tirou a blusa e viu no espelho os cabelos castanhos e ondulados a cobrir os seios médios, rijos, ligou o som numa bossa-nova baixinha e foi guardar a camiseta preta junto com as outras no armário, retirou da parte dos travesseiros a camisa branca de malha, dele, e deitando em concha por cima do edredom sequer percebeu as duas quedas de luz subseqüentes, a faísca pequena na tomada do stereo à volta da eletricidade.
A manhã rompeu como Guilherme pelos corredores do pronto-socorro, confuso, os óculos desajeitados. Seu corpo só parou por dois enfermeiros que pediam calma, falavam não, informações a ele imperceptíveis. Por dentro do janelão de vidro, envolta num cheiro acre, estava ela, desenhada em ataduras, os olhos semi-cerrados.
' Passaram-se quinze dias desde a vista, mas ele não sabia do tempo. Quando enclausurado em si o tempo é quando e onde lugar que não existe. Guilherme já divisava os tacos de seu chão, os sabia quantos, por quê, diferentemente um dos outros; a cama era não mais um pouso mas paradeiro, estável, recorrente, e o teto, gélido, parecia o contemplar com ironia no olho único. Não mais sentia temperaturas ou cheiros, ignorara o celular ao fundo de uma gaveta, e quando este gritava as almofadas o abraçavam pelo rosto, os olhos maquinavam paisagem qualquer.
Mas a qualquer dia as pernas produziriam movimento involuntário e o corpo erguer-se-ia num espasmo. Guilherme levantou-se, vestiu roupas, escovou os dentes e sem perceber limpava os óculos dentro do carro. O veículo tinha destino certo, a outra ponta da cidade, e por sinais vagava intranqüilo, lento. Do momento em que os faróis iluminavam a álea escura ao ponto em que seus olhos divisaram a porta trancada não sentira nada, talvez frio, mas pouco.
- Nós vamos sair hoje.
Disse isso antes mesmo de entrar no quarto, de vê-la encolhida na cama, o rosto como que mascado, o nariz levemente torto, os cabelos nulos; antes mesmo de a beijar os lábios e em seqüência a fronte, de sentir dela um calor por vezes não contemplado, nos olhos. Guilherme sorriu, um movimento curto, desacostumado pelo tempo, virou-lhe as costas e abriu as portas do armário, e já com o ato em mente contemplou a extrema quantidade de roupas, camisetas pretas e brancas, saias grandes, pequenos casacos de crochê.
- Nós vamos sair hoje.

Amy Winehouse (ou Outros Rostos) (ou Restos) (ou Dores, demônios e outros impossíveis)



Se vem aqui é por algum motivo, um recado, desejo.

A fumaça azulada escala o vidro fosco da janela, encontra no basculante escotilha, se perde pelo céu sexto andar a cima. A casa está posta, a mesa-tampo-de-vidro ladeada de cadeiras, sofá amarelo abraçando a colcha de retalhos, TV cega, som semi-mudo sussurrando. Se está no centro ou de lado, a sala, a luz, ele, tanto faz; nada a saber de nada e a escuridão a insistir entrada rompendo o dia.

Se, é por nada, coisa alguma. Ainda estou de fora.

PLUMA

o contorno da mulher, lado esquerdo, na câmera de segurança, a bolsa suspensa no abismo do ombro, sai do vídeo como onda calma, a mão espalmada pede licença à porta de madeira número seis. Dos olhos fixos (603) o branco se confunde à porta; o corpo a seguir – irmão de cor da campainha. (A ponta dos dedos não hesitam) e a entrada é bravia, da voz a tempestade; há tempos não se formavam nuvens, por vezes a chuva cai. Num festival de braços, esquadros, tombos prováveis, dois corpos são um só e o vazio estampa as paredes claras, o tampo-penduricalho-pizza-promoção da geladeira alva, o silencioso flamejante olho do teto recém-aceso.

De três duas você perde

Todas você perde

EU VIM AQUI PRA

Do lado de fora um janelão de vidro fosco, único, mal visto por andares acima, opostos. Descortinado. O chão traçado por roupas esbugalhadas, calças jeans, blusa amarela, blusa negra, meias, sandálias, tênis, um cordão de ouro – trapezista metade de um sol.

PEDRA

indicador, dedo médio e polegar em comunidade enterrando a guimba na cinza, a mão direita vasculhando outro maço na mochila, os olhos surpresos, a boca ruminando réstias de sonho. Indicador, dedo médio, polegar e todos os outros na maçaneta, festival de silêncios nos olhos e nos corpos, cada traço singular a outro. O corpo branco que descobrira descobriria o amarelo tossindo a procurar assunto cada vez mais nulo. Sem braços nem pernas nem sexo mas a forma ilógica de dois corpos num só, proclamações abafadas, intervalos superados no paladar.

ligação dupla

instável

metil-etil

A CULPA FOI MINHA

Se viesse aqui me assustaria

O teto claro e bonito com a luz no fundo de tudo, imutável. O inferno do repetido, a dor do mínimo toque mínimo, impossível.

Se fosse lá não iria por vontade

sábado, 6 de outubro de 2007

Viagem.

A paisagem negra como a noite mas sem ninguém horrendo a dançar.

5

Um homem de aparelhos diz coisas sobre atitude, reação, vontade, deixa de observar o campo ao seu redor, conclui o raciocínio com a idéia de vitória.

7

Um homem de língua presa fala do prazer de estar daialogando sobre o futuro e o passado com um cidadão de microfone dourado. Ao lado deles um rapaz de cabelos empastados de gel segura um saxofone e sorri para mulheres que gritam seu nome seguido por um "eu te amo".

10

moreno vai de encontro ao público exigindo que todos fiquem agachados movimentando a pélvis, são senhoras e meninas dançando com olhos fechados, aplaudindo logo depois.

12

um homem magro de terno diz que o evento começará às oito e meia e terá muita gente bonita.

18

um rapaz e uma moça alternam-se segurando um cubo negro. Com o cubo nas mãos ambos procuram um botão que, se apertado, emite a mensagem "passe ao companheiro".

22

homens e mulheres sacodem jornais cantando ao mestre criador.

45

uma mulher versa sobre o que se deve fazer nas escolas, como tratar as pessoas, os excluídos, os famigerados, os menos esclarecidos.

O botão vermelho cessa a jornada, como um espasmo. Não, não deve ser bem isso.

Lugares

Sombra da goiabeira.
A menina deitada, vestidinho antes branco, pés cobrindo uns aos outros, areia nos braços, olhos vermelhos, castanho dos cabelos embaçado.
- Nina Nina
Predileta do pai, gostava de sentir o cheiro dele no envolver dos braços, carinhos em barba espetada.
O muro.
Da vizinha a mãe não ganhara ajuda, por isso estava aí, tombado, as juntas de cimento, as vigas já gastas.
- Que é isso filha?
E das mãos delicadas sentiria leve o toque, macio, o rosto sereno, de anjo, os ohos azúis da mãe. Mas não. Hoje em olhos molhados, sem tato, dor.
Vem você Baixinho, vem você Baixinha, tem muito desenho... - Maria. Ô Maria!
O rio lá fora.
desce desce as escadas rápido rápido pés trepidando os degraus cinzas cinzas as águas barrentas do rio do rio subindo descendo subindo descendo a cara no chão
- Maria tá aí menina?
- Não
- Posso esperar?