quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Então

Narrativa cantável


Do momento em que o raio clama, risca o céu já cinza, sorrisos ainda espalham a avenida, gargalhadas via telefone celular, menina bonita de passos largos, sacolas e bolsas às mãos. "Essa é pra levar pra casa SeuZé, no plástico". Quinze graus - o homem sacolejando a panela de pressão, gravatas e vestidos passeando, bijuterias e amendoins torrados, valha-me deuses de todas as cores.

- é sempre o mesmo lugar, mudam as fachadas, as cores, mas nada.

Sinal verde. Olhai. Carros dançando em ultrapassagens, pés tremulando (asfalto - calçada - asfalto - calçada), passos largos deixaram o ponto inicial, "negócio é besteira o trabalho é sambar". Balões de gás em dedos questionadores: "trenzinho de Domingo?". Olhos ávidos nos jornais à mostra, banca de cigarros, forró com boneca de pano. Relógio de parede em pulso de palhaço, brinquedos motorizados, eletrônicos, DVDs, "dois é oito um é cinco".

Queria andar feito equilibrista pelos muros, encarapitar-me pelas jabuticabeiras vizinhas, driblar em terra vermelha, levantar papagaio.

Ninguém a espera, mas surge. Sacolas e bolsas às cabeças, corridas a lugar nenhum, escorregões, "Ih, que aumentou a dose". Frenagens em uso, desfile de reflexos pelo asfalto. Passos largos agora curtos, param em sombra de guarda-chuva - inclinam-se. Isqueiro sem funcionar, barraqueiros em retirada, grande público sob as marquises.

- anda em círculo, cambaleia, persiste.


* ainda há: um a dançar, olhos cerrados sem Norte.

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