sexta-feira, 17 de agosto de 2007

E o rio

Quase que sem flores inicia-se a trama, estorinha simples de passar por pouca atenção dos ouvintes. Estava o velho estirado, calça negra sem vinco, os mesmos sapatos rotos - meias ausentes, blusa de mangas compridas cinza, amarfanhada no deitar, a gola encerrando o peito, faltava um botão à altura do umbigo, pouco acima ou pouco abaixo, mas sem se notar.
À medida que os presentes se tornavam tal o nome, a área, aberta por diversos buraquinhos censores de mosquitos, pernilongos e outros insetos voadores e de mesmo (ou próximo) tamanho, manifestava-se num calor em escalada, subindo dos pés - se ajustando dento dos calçados, empapuçando o vão dos dedos nos chinelos - passando aos dorsos - deixando linhas corrigíveis nas dobras de barrigas sentadas - às cabeças, reluzindo em testas, esvoaçando no enxarcar os cabelos.
Todos ali cumpriam o mesmo ritual ao chegar, independente de classe, cor,crédulo, todos, o farmacêutico aposentado, a vizinha, o dono da venda, o bêbado à hora sóbrio, entravam olhando os lados, as paredes no embolso, o armário de um pardo pálido, alcançavam a passos curtos o rosto do velho, acomodado num riso frouxo sem mostrar os dentes, e se serviam de um café ralo, até que o da venda trouxe roscas semi-doces, depositadas aos pacotas sobre o fogão tampado, devorados em seguida por dentes firmes, espalhando por toda a boca os micropedaços de farinha. Só um homem, esguio e pardo, barba pouco grande, caminhou reto ao velho, ao olhar atento e à boca cheia dos demais, e fitou por instante demorado. Seguia-o uma mulher negra, magra, arrastando pelas mãos garoto mínimo, shorts verdes e camisetinha branca.
Os presentes ainda seguiam aos olhos os novos, a mulher deixava a mão do menino, que em passos lépidos atravessou a sala e foi dar ao portão olhando o quintal, e pousava uma mão espaldada nas costas do homem a olhar. Era o filho, de pé. O pai, o velho, mal acomodado na caixa, como se dormindo, deitado.
"Seu Junin, condolência...", o bêbado não se apresentava em tal estado, mas os olhos amarelos, contrastantes com a pele negra, luzidia pelo calor, o entregavam. E foram mais e mais frases, elogios ao homem que foi, trabalhador, criador do próprio filho depois da viuvez, alegre, amigo, sem igual. A todos o homem sacudia a cabeça, agradecia, num "obrigado" entre dentes, semi-mudo, miado.
E como as horas passando os presentes permaneciam (só o farmacêutico saíra, mas voltava, era um minuto), o homem sentou-se, acomodando as costas na cadeira retilínea de madeira, bebeu de um gole o café, e sem tempo sentiu a barra da calça jeans a ser puxada. Era o filho, seu, com olhos esbugalhados a sacudir pipa vermelha na mão. Desceram, e apesar do pouco vento a pipa se levantou, sacolejando no sêco a sombra viva, refletindo-se no rio passante por detrás da casa, iludindo os olhos.
"Júnior", a voz da mulher percorreu trilha reta, informação, hora chegada. O homem se ditraiu, virou os olhos, e a pipa planou boiando na margem longe do rio. Ao alarido do menino o pai o levou ao colo, abriu o portão de bambus dando pras águas e chegou a sentir o traço frio do pisar à beira com tênis furados. A pipa logo sumiu, e o rio seguiu seu curso, levando folhas e o que mais.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

ALGUM

Um José caminha ferido ao encontro, um repuxo nas carnes, sangue fervendo ao corpo - trepidação de paralelepípedos e iluminação parca. A poeira o absorve, do chão sem varredores, das frestas, do tempo; vento ausente, céu de estrelas que só o olhar alcança.

Os passos vacilantes tateando as escadas, álcool e horas a fio, um gosto amargo na boca, barba na necessidade de fazê-la. O giro da chave gira a porta, exerce voltas nas paredes, figuras estranhas no teto descascado. A porta se abre, de tanto forçar-lhe por fora entregou-se por dentro, sandálias, pernas, pijamas brancos, e uns olhos perdidos, negros feito o céu.

A xícara no apoio, café fresco esfumaçando o rosto, lábios rachados abocanham o último trago, dedos magros lançam a guimba a nem ser. Um José permanece sentado, pernas finas, planta do pé acolhendo o chão, cabelos tal ventania. Espera. Maria, Tereza, ou qualquer outro nome, de olhar negro como o céu da noite, ou azul como da manhã. Instável - corpo fixo no dia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Então

Narrativa cantável


Do momento em que o raio clama, risca o céu já cinza, sorrisos ainda espalham a avenida, gargalhadas via telefone celular, menina bonita de passos largos, sacolas e bolsas às mãos. "Essa é pra levar pra casa SeuZé, no plástico". Quinze graus - o homem sacolejando a panela de pressão, gravatas e vestidos passeando, bijuterias e amendoins torrados, valha-me deuses de todas as cores.

- é sempre o mesmo lugar, mudam as fachadas, as cores, mas nada.

Sinal verde. Olhai. Carros dançando em ultrapassagens, pés tremulando (asfalto - calçada - asfalto - calçada), passos largos deixaram o ponto inicial, "negócio é besteira o trabalho é sambar". Balões de gás em dedos questionadores: "trenzinho de Domingo?". Olhos ávidos nos jornais à mostra, banca de cigarros, forró com boneca de pano. Relógio de parede em pulso de palhaço, brinquedos motorizados, eletrônicos, DVDs, "dois é oito um é cinco".

Queria andar feito equilibrista pelos muros, encarapitar-me pelas jabuticabeiras vizinhas, driblar em terra vermelha, levantar papagaio.

Ninguém a espera, mas surge. Sacolas e bolsas às cabeças, corridas a lugar nenhum, escorregões, "Ih, que aumentou a dose". Frenagens em uso, desfile de reflexos pelo asfalto. Passos largos agora curtos, param em sombra de guarda-chuva - inclinam-se. Isqueiro sem funcionar, barraqueiros em retirada, grande público sob as marquises.

- anda em círculo, cambaleia, persiste.


* ainda há: um a dançar, olhos cerrados sem Norte.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A banda do tempo

Pegamos as traquitanas no bar do NemParece e começamos ali mesmo a fundar a sonoridade
única de nossa trupe celestial que partiria brevemente a algo de singular num mundo formado por som, cor, poeira, ou tudo isso agrupado a uma sinfonia de Beethoven que nunca ouviríamos.
Um no surdo outro no tambor, a fim de ouvirmos, guitarras flautas coros e garrafas de cerveja que perambulavam pelas mesas enquanto estravagantes notas, moedas e até cheques pré-datados recusavam-se em ressonar.
Nem parece que embebedamos o luar com nossa arte a ponto de gargalhar e queimar-nos. Parecíamos era fazer sucesso diante do fato de o público ser formado por nós mesmos, mas ao tempo em que alguns integrantes principiaram a desertar e o dono do bar, nosso maior entusiasta (e por que não dizer fã número um?), varría-nos porta a fora munido de vassoura de piaçava, palavras de baixo calão e uma conta quilométrica que enforcáramos sem dó e com requintes de crueldade, decidimos encerrar nossa curta porém promissora carreira por divergências artísticas numéricas e monetárias, além de alguns integrantes que desejavam , por própria satisfação e luxúria, ampliar a carreira somente para cheirá-la logo em seguida.
É certo dizer que o dia respondeu com desânimo à nossa desistência soprando um vento gélido e turbulento que nos levou a assobiar uma modinha fúnebre enquanto dançávamos involuntariamente abraçados pela marcha do retorno, mas como se tudo não se bastasse a nada caiu-nos dor de cabeça inigualável a hora de acordar, a que cuidaremos com um pacote de aspirinas, meia dúzia de refrigerantes plenamente gaseificados e o eterno desejo de surgir música em todo e qualquer estado geográfico e espiritual.
Tenham todos uma ótima noite!