"Você tem apelido?"
"Não"
"Todo mundo tem apelido"
"Eu não tenho"
A bola quicando por de trás da quadra, muro de chapisco.
"Com quem você mora lá?"
"Minha vó"
O franzino no quintal, a cachorra correndo feito vento atrás do galho.
"Vem Tico"
Os pés da velha se arrastando pelos tacos, chinelo de tira só, grossa, vestido cinza surrado.
"Tico?"
As mãos de menina, uma rosa. O caminho trêmulo que se faz de volta.
"É"
A chuva molhando a avenida, cabeças feito formigas.
"Obrigada"
A luz rebolando na lâmpada, trovão.
"Deita meu menino"
As pernas que se afastam trepidando nos paralelepípedos, três da manhã.
"Você quer voltar pra lá?"
O menino ressonando sonho no sofá-cama.
"Boa noite Tico".
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