terça-feira, 26 de junho de 2007

cigano

Água: dois momentos, olhares

1

O menino esfrega os pés no barro escuro de beira-rio, "Tico!", os olhos vendo o Paraíba passar, pardo, festival de folhas dançando na correnteza.

2

"Tico, vem comer". Era Antônio. Os olhos se esgueirando pelas grades do portão do quintal. Cheia. O rio indo se encostar preguiçoso no portal. Layla farejando o calcanhar, desabrigada. Quinze anos, espinhas, tédio. "Tico". É Antônio vó

Caminho

"Quando chegar liga. Tem orelhão na porta do prédio".
Cinco da tarde, Domingo, o sol fervendo o chão de paralelepípedos, empapuçando suor debaixo dos braços. Pequena barba por fazer. Dezessete anos, desengonçado, bolsa imensa no ombro direito, esquerdo, direito.

- rodoviária - ônibus Progresso, poltrona 35. Velha, múmia, não rebaixa o banco. Ignição. As costas tentam se acomodar na poltrona disforme, mastigando o corpo.

SEJA BEM VINDO A ALÉM PARAÌBA

Saída. Os olhos que acompanham o rio, calmo, por baixo da ponte. Tico vasculhava a mochila, maço de STAR pela metade, isqueiro azul, carta.
Maria.
Olhos negro fugidios, cabelos grossos, caracóis ao vento.
"Você volta?".
"Mês que vem", o dinheiro só dá pra voltar uma vez no mês.
Vontade de fumar.
O rio rebentando nas pedras antes de Sapucaia. Abaixa os olhos. Sono. Não há mais rio. Seguiu seu caminho por outras posses, vadio.
Tico ressona na poltrona dolorida.
É Antônio vó

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