A maca reluzente, cega de tão branca, as rodas chiando pelos corredores de apartamentos fechados. Mãos pensas, as veias tal cicatrizes, o rosto enrugado. Teto de infiltrações, ilustrações estranhas.
Calma, respira
Contrações sem ser, boca sêca.
E o ar?
"Abre aê Juarez!"
Inútil...velho inútil.
"O que?"
O rio, o sol, aqueles pássaros que não sabia nome.
"Calma senhor"
Um tempo cinza, ridículo.
"Maria"
quinta-feira, 28 de junho de 2007
esse mundo:
"Você tem apelido?"
"Não"
"Todo mundo tem apelido"
"Eu não tenho"
A bola quicando por de trás da quadra, muro de chapisco.
"Com quem você mora lá?"
"Minha vó"
O franzino no quintal, a cachorra correndo feito vento atrás do galho.
"Vem Tico"
Os pés da velha se arrastando pelos tacos, chinelo de tira só, grossa, vestido cinza surrado.
"Tico?"
As mãos de menina, uma rosa. O caminho trêmulo que se faz de volta.
"É"
A chuva molhando a avenida, cabeças feito formigas.
"Obrigada"
A luz rebolando na lâmpada, trovão.
"Deita meu menino"
As pernas que se afastam trepidando nos paralelepípedos, três da manhã.
"Você quer voltar pra lá?"
O menino ressonando sonho no sofá-cama.
"Boa noite Tico".
"Não"
"Todo mundo tem apelido"
"Eu não tenho"
A bola quicando por de trás da quadra, muro de chapisco.
"Com quem você mora lá?"
"Minha vó"
O franzino no quintal, a cachorra correndo feito vento atrás do galho.
"Vem Tico"
Os pés da velha se arrastando pelos tacos, chinelo de tira só, grossa, vestido cinza surrado.
"Tico?"
As mãos de menina, uma rosa. O caminho trêmulo que se faz de volta.
"É"
A chuva molhando a avenida, cabeças feito formigas.
"Obrigada"
A luz rebolando na lâmpada, trovão.
"Deita meu menino"
As pernas que se afastam trepidando nos paralelepípedos, três da manhã.
"Você quer voltar pra lá?"
O menino ressonando sonho no sofá-cama.
"Boa noite Tico".
terça-feira, 26 de junho de 2007
cigano
Água: dois momentos, olhares
1
O menino esfrega os pés no barro escuro de beira-rio, "Tico!", os olhos vendo o Paraíba passar, pardo, festival de folhas dançando na correnteza.
2
"Tico, vem comer". Era Antônio. Os olhos se esgueirando pelas grades do portão do quintal. Cheia. O rio indo se encostar preguiçoso no portal. Layla farejando o calcanhar, desabrigada. Quinze anos, espinhas, tédio. "Tico". É Antônio vó
Caminho
"Quando chegar liga. Tem orelhão na porta do prédio".
Cinco da tarde, Domingo, o sol fervendo o chão de paralelepípedos, empapuçando suor debaixo dos braços. Pequena barba por fazer. Dezessete anos, desengonçado, bolsa imensa no ombro direito, esquerdo, direito.
- rodoviária - ônibus Progresso, poltrona 35. Velha, múmia, não rebaixa o banco. Ignição. As costas tentam se acomodar na poltrona disforme, mastigando o corpo.
SEJA BEM VINDO A ALÉM PARAÌBA
Saída. Os olhos que acompanham o rio, calmo, por baixo da ponte. Tico vasculhava a mochila, maço de STAR pela metade, isqueiro azul, carta.
Maria.
Olhos negro fugidios, cabelos grossos, caracóis ao vento.
"Você volta?".
"Mês que vem", o dinheiro só dá pra voltar uma vez no mês.
Vontade de fumar.
O rio rebentando nas pedras antes de Sapucaia. Abaixa os olhos. Sono. Não há mais rio. Seguiu seu caminho por outras posses, vadio.
Tico ressona na poltrona dolorida.
É Antônio vó
1
O menino esfrega os pés no barro escuro de beira-rio, "Tico!", os olhos vendo o Paraíba passar, pardo, festival de folhas dançando na correnteza.
2
"Tico, vem comer". Era Antônio. Os olhos se esgueirando pelas grades do portão do quintal. Cheia. O rio indo se encostar preguiçoso no portal. Layla farejando o calcanhar, desabrigada. Quinze anos, espinhas, tédio. "Tico". É Antônio vó
Caminho
"Quando chegar liga. Tem orelhão na porta do prédio".
Cinco da tarde, Domingo, o sol fervendo o chão de paralelepípedos, empapuçando suor debaixo dos braços. Pequena barba por fazer. Dezessete anos, desengonçado, bolsa imensa no ombro direito, esquerdo, direito.
- rodoviária - ônibus Progresso, poltrona 35. Velha, múmia, não rebaixa o banco. Ignição. As costas tentam se acomodar na poltrona disforme, mastigando o corpo.
SEJA BEM VINDO A ALÉM PARAÌBA
Saída. Os olhos que acompanham o rio, calmo, por baixo da ponte. Tico vasculhava a mochila, maço de STAR pela metade, isqueiro azul, carta.
Maria.
Olhos negro fugidios, cabelos grossos, caracóis ao vento.
"Você volta?".
"Mês que vem", o dinheiro só dá pra voltar uma vez no mês.
Vontade de fumar.
O rio rebentando nas pedras antes de Sapucaia. Abaixa os olhos. Sono. Não há mais rio. Seguiu seu caminho por outras posses, vadio.
Tico ressona na poltrona dolorida.
É Antônio vó
terça-feira, 19 de junho de 2007
(In)definido.
O rosto branco, os cabelos negros sustentados pelos dedos, os olhos claros por trás dos óculos, a boca - pausa trêmula, o cigarro vindo de mão outra vez em quando, cinza imensa.
Repulsa não?A repulsa?Não. Paixão, violentada, talvez. Os cantos dos ossos que doem, nada mais. Nenhum gosto na boca.
A espera.
Os olhos indo por muito mais longe que as janelas dos apartamentos. Vaga-lumes. Esperança de achar espaços.
Lugares feitos de carne.
Repulsa não?A repulsa?Não. Paixão, violentada, talvez. Os cantos dos ossos que doem, nada mais. Nenhum gosto na boca.
A espera.
Os olhos indo por muito mais longe que as janelas dos apartamentos. Vaga-lumes. Esperança de achar espaços.
Lugares feitos de carne.
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