quarta-feira, 21 de março de 2007

Nós dois.

- Quem é ele?
- Um amigo.
- Não é meu amigo.
- É meu amigo.
- Tem nome o seu amigo?
- Reinaldo, muito prazer.
- Tudo bem.
- Que você estava fazendo?
- Lembrando da nossa primeira vez.
- Nossa.
- Minha e dela.
- E como foi?
- Eu não me lembro muito bem. Sei que foi bom. Muito bom.
- Alguma coisa em especial?O lugar?
- Não me lembro. Lembro dos cabelos dela servindo de pele ao travesseiro, encaracolados, lindos. Lembro do cheiro. Bom. Os olhos. Já te falei dos olhos dela? Eram de um azul, um azul cru, sabe, céu de meio-dia, cru, lindo. Eu lembro disso o tempo inteiro. Os cabelos banhando o travesseiro. Os nós dos dedos. Ela socando as costas da cama. Meus dedos. Meus nós forçando a carne.
- Tudo bem.
- Eu quero vê-la.Preciso vê-la.Quando ela vem?
- Ela não deve demorar.
- Eu quero ela aqui. Agora.
- Eu sei. Eu já chamei, ela ainda não veio, mas, mas ela não deve demorar.
- Mas eu quero agora.Eu quero.
- Calma.
- Quero...
- Calma.Calma!Me ajuda Reinaldo!

* * * * * *

- Essa é ela. Isso é o que ele fez com ela.
- Nossa. Como?
- Os dois, viciados em crack, cocaína, enfim. Ela parou, tentou deixá-lo. Ele não tinha parado ainda.
- Mas como aconteceu?Um pedaço de pau? Uma pá?
- Ela voltou em casa um dia, pegar umas coisas. Estupro seguido de assassinato. Ele a matou com as próprias mãos Reinaldo.
- É. Não me estranha ele ter ficado desse jeito.
- Que jeito?
- Doido?
- Não se iluda. É só pra amenizar a pena.
- Como você me diz isso? A mulher não tinha cabelos encaracolados, não tinha olhos azúis, ele esqueceu completamente quem é, era, ela.
- E?
- E você acha pouco?Ele esqueceu como era o rosto da própria mulher. Da própria vítima.
- Quem tem esse rosto Reinaldo?
- Não sei.
- São meus os olhos azúis. São meus os cabelos encaracolados. Meus.

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