quinta-feira, 29 de março de 2007

(amor

De longe o vi, primeira vez, e acho que foram meus os primeiros olhos, seguidos dos dele, sol de meio-dia, vento quente, estranhezas. Nem sei o que foi mais estranho, eu, ele, o horário improvável de se encontrar, o rosto de formatos grandes, espécie de homem-menino, graça, meus braços, longos, blusa amarela, trânsito, atenção, falta de.
E era toda primeira vez, primeiros passos, desconsertados por observar outros passos, brilho nos olhos talvez, nem sei, pois primeira vez se fez em tudo, no olhar outros pés, pernas, tronco, membros, rosto, cabelos negros desmanchando vento, olhos feito sorriso, negros. E meus olhos azúis-de-lente olhando tudo só aquilo, cabelos crespos que odeio, sacolejando, pele, sol, passos, tremem, galho no vento.
Era isso.
Só.
Parágrafo de uma linha, sem inversão, invenção.
Ele.
Eu.
Eleeu.
Ele e eu.
Sem nó, soltos, encontro sem sombra no sol.
Assim, faltava um "oi", "tudo bem", um sei-lá-o-quê, olhar, sorrir, falar, gritar, sentir, tocar, enfim. Só o fim faltava.
E findo estava, desde início, findo está. Carro correndo por cima da faixa, ele, eu, todos os outros, corpo de menino-homem sorrindo pro céu, sorriso desgosto, careta mais, dor talvez, talvez não, amor que começa-acaba, sonha, zombeteiro, engraçado se não triste, trágico, amor doido que corre pra lado que nenhum lado sabe qual é, carinho, olhar homem-mulher, rápido, do tempo.

terça-feira, 27 de março de 2007

Se Marlene pinta os pés pra ir à igreja.

Se Marlene não nasce nada de novo aconteceria, a casa ao lado da igreja seria a mesma, as paredes ainda estariam estranhas, como se fossem do século passado, o teto do banheiro continuaria cheio de infiltrações, as janelas continuariam rangendo ao abrir, a luz acima da porta principal continuaria trêmula e o sol continuaria a bater no chão, nada haveria de mudar.
Se Marlene não cresce rápido, tornando-se logo mulher feita, seus olhos ainda seriam de azul raso, como tantos azuis, as pernas continuariam finas, as coxas macilentas, o dorso ainda arqueado, tudo ainda seria próprio de Marlene.
Se Marlene não conhecesse Reinaldo aos quinze anos talvez o fizesse aos quatorze, quem sabe aos dezesseis, mas o faria, na quermesse ou na feira de Sábado, num sol amarelo e forte ou na chuva, fina ou grossa, à tarde ou à noite, independentemente do vento, ou dos pombos que voam sobre a praça, ele diria “oi”, e ela responderia, por um sorriso truncado ou uma longa gargalhada, “sim”.
Se Marlene não tivesse dois filhos na primeira gravidez, ainda assim, Reinaldo continuaria bebendo todos os Domingos, continuaria pedindo à mulher para que não fizesse nunca mais bife de fígado nas quartas-feiras, xingando-a toda noite, amando-a logo em seguida.
Mas se Marlene pinta os pés para ir à igreja tudo muda. Não para ela. Os pedidos continuariam sendo os mesmos, saúde, paz e um futuro melhor. Seus shorts continuariam sendo cor de rosa, sua mãe continuaria dependendo dela pra comprar os remédios e tratar da diabetes, Reinaldo continuaria pulando de emprego em emprego e as crianças continuariam brigando umas com as outras pelo carrinho de flexão amarelo. Se Marlene pinta os pés para ir á igreja, abaixa os olhos pra rezar e coloca os pés no lugar em que os fiéis se ajoelham, talvez a imagem de São José, ou a de Cristo, dependendo do lado em que ela se senta, veria dez dedos tortos, sorrindo em vermelho.

quinta-feira, 22 de março de 2007

- cambraia -

de que adianta o amor através dos tempos, cotidiano de carinhos, sonhos compartilhados, se o melhor beijo fora dado uma única vez - em lábios jamais reencontrados

Acendeu o cigarro. Afrouxou a gravata.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Nós dois.

- Quem é ele?
- Um amigo.
- Não é meu amigo.
- É meu amigo.
- Tem nome o seu amigo?
- Reinaldo, muito prazer.
- Tudo bem.
- Que você estava fazendo?
- Lembrando da nossa primeira vez.
- Nossa.
- Minha e dela.
- E como foi?
- Eu não me lembro muito bem. Sei que foi bom. Muito bom.
- Alguma coisa em especial?O lugar?
- Não me lembro. Lembro dos cabelos dela servindo de pele ao travesseiro, encaracolados, lindos. Lembro do cheiro. Bom. Os olhos. Já te falei dos olhos dela? Eram de um azul, um azul cru, sabe, céu de meio-dia, cru, lindo. Eu lembro disso o tempo inteiro. Os cabelos banhando o travesseiro. Os nós dos dedos. Ela socando as costas da cama. Meus dedos. Meus nós forçando a carne.
- Tudo bem.
- Eu quero vê-la.Preciso vê-la.Quando ela vem?
- Ela não deve demorar.
- Eu quero ela aqui. Agora.
- Eu sei. Eu já chamei, ela ainda não veio, mas, mas ela não deve demorar.
- Mas eu quero agora.Eu quero.
- Calma.
- Quero...
- Calma.Calma!Me ajuda Reinaldo!

* * * * * *

- Essa é ela. Isso é o que ele fez com ela.
- Nossa. Como?
- Os dois, viciados em crack, cocaína, enfim. Ela parou, tentou deixá-lo. Ele não tinha parado ainda.
- Mas como aconteceu?Um pedaço de pau? Uma pá?
- Ela voltou em casa um dia, pegar umas coisas. Estupro seguido de assassinato. Ele a matou com as próprias mãos Reinaldo.
- É. Não me estranha ele ter ficado desse jeito.
- Que jeito?
- Doido?
- Não se iluda. É só pra amenizar a pena.
- Como você me diz isso? A mulher não tinha cabelos encaracolados, não tinha olhos azúis, ele esqueceu completamente quem é, era, ela.
- E?
- E você acha pouco?Ele esqueceu como era o rosto da própria mulher. Da própria vítima.
- Quem tem esse rosto Reinaldo?
- Não sei.
- São meus os olhos azúis. São meus os cabelos encaracolados. Meus.