terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

outro dia

Manhã.

Ao lado do supermercado, no prédio de fachada verde e branca, quinto andar, apartamento 501, janela da sala, centro da janela. A menina de olhos incertos mexe no cabelo com dois dedos, a boca semi-aberta, o cotovelo direito sobre o alumínio frio,a camiseta rosa que contrasta com o dia nublado.

Um som quase eterno.

se ela estivesse soubesse achasse qualquer coisa infinita meu amor sentimento dúvida muitas dúvidas milhares de dúvidas onde ela está um dois três quatro cinco seis sete oito nove zero azul a calcinha azul eu de azul naquele dia aquele dia não era azul era cinza tanto faz onde está ela um mais dois três mais três seis mais quatro dez mais cinco quinze mais seis vinte e um mais sete vinte e oito mais oito trinta e seis mais nove quarenta e três mais zero quarenta e três se fosse mais dez seria cinqüenta e três não daria sessenta azul tudo azul onde ela está onde

Um espirro.

O movimento da cabeça – a cabeça vai para trás depois bruscamente para frente, quando volta os olhos estão cerrados, quando abrem-se, lacrimejam.
O que se vê – na inclinação vê-se o céu, os olhos cerram-se, voltam lacrimejando, a visão turva foca um garoto negro de olhos fixos, batendo o telefone.
As mãos – as mãos com o voltar da cabeça jogam o cigarro no chão como por um susto, tremem um pouco.

Devagar ao travesseiro.

ele eu não quero ele eu quero ele mas não e o outro aquele outro Luís o nome dele as rosas na estante pote cheio d´água água mineral Santa Luzia verão muito sol calor praia bíkini listrado o sol óculos escuros a chuva vai cair a chuva o céu está negro e ele onde será que ele está deve ser com uma puta uma puta eu nunca fui puta e não quero ser puta eu não quero ser puta não não quero lavar meu cabelo escovar os dentes prova amanhã Geografia um saco pedras rochas e ele onde ele deve estar e o outro pensando em mim e o outro quantas outras ele deve ter e eu quem sou eu um pêlo o cobertor tá frio tá quente lá fora como está lá fora como está

Ponto 2, olhar 1.

Esperando o ônibus a velhinha de casaco marrom aperta nas mãos as sacolas do supermercado, o mesmo que tem pequenos preços e grande economia. Os olhos já cansados escondidos atrás das lentes grossas filmam devagar o movimento das ruas, os casais jovens de mãos dadas e sorriso claro, os mais velhos de mãos soltas e sorriso amarelo.Um ônibus, muitas motos.Alguns carros.Por onde andaria o 402?Seria uma viagem como em todas as outras compras.Meia hora até chegar em casa, recolher o gato que foge pra rua, arrumar os pratos, os garfos, os copos, de um tudo tem que se fazer pra manter uma vida em ordem.

“Opa!”

André andava decidido, era hoje, claro que era, não poderia deixar de ser. O dia continuava cinza, a mochila era leve e ele pensava em tudo, José Saramago, aviões, a loirinha da padaria, o filme do Tarantino, uma vassoura de folhas.
O sinal fechou, os segundos contavam decrescentemente e André focou-se no 10, 9, 8,7...saiu correndo e chegou no 1 ao outro lado da calçada.Desviou de uma menina de blusa branca mas não escapou da velhinha que se encontrava no ponto.”Opa”, disse ele, e, olhando a velhinha de olhos engraçados por trás dos óculos, seguiu em frente.

“eu...”

O telefone tocou, estridente, três vezes.Camila atendeu com ar cansado.
-Alô?
-Sou eu.
-Oi.
-Tá bem?
-Sim, tô.E você?
-Legal.Tô em casa.Quer sair?
-Não, tô cansada.
-A gente tem que conversar.Desce.
-Prefiro outro dia, hoje não, tenho muita coisa pra fazer, prova...
-Por que?
-Por que o que?
-Nada, esquece...eu...
O silêncio alongou-se por segundos rápidos.Do outro lado, a linha caiu.

Ponto 1, olhar 1.

Juliana atravessou a avenida principal de olho no cronômetro que corria no semáforo. O casaco preto fechado à altura dos seios, por baixo a blusa rosa manchada de café. Eram horas vazias aquelas do início da manhã, a aula era à tarde.
Os olhos vivos e castanhos raiavam inertes, nada acontecia há tanto tempo que os rostos da rua pareciam máscaras disformes, aleatórias a qualquer observação.

Tudo.

André postou-se à frente do orelhão. Olhou ao redor.A rua cheia de gente irradiava pressa.Um homem de meia-idade, tranqüilo, olhava o nada sustentando um cigarro na mão direita.
Olhou as teclas negras, enfiou o cartão, digitou o número e enquanto esperava a outra voz aparecer somava os números.Nunca o resultado era com zero no final,nunca.Onde ela estaria?
Ela atendeu, disse que não, disse tudo menos o que ele queria ouvir, disse nada.
Os olhos sérios focavam o interior empoeirado do orelhão.Bateu o telefone sem ter mais o que dizer.

Ponto 3, olhar 2.

Juliana chegou ao outro lado da rua. Uma mecha de cabelo habitando parte da visão.De trás do orelhão saiu um garoto negro de olhos uniformes. Juliana o olhou por alguns segundos, segundos que pareciam tempo ganho. Ela baixou os olhos, seguiu pra casa. À janela o céu cinza parecia clarear, e o mundo de cabeças abaixo parecia ganhar vida, como uma música que se toca no verão.

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