quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

nós

- E então?
- Não sei. O fato é que a primeira impressão foi essa, eu a via de duas cadeiras atrás, via a parte lateral dos dedos, alguns, ela colocava a mão esquerda apoiando o rosto, parece que olhava pra rua, sem procurar, só por olhar, e as unhas não eram feitas, sem esmalte, e tinha os cabelos, os cabelos castanhos, encaracolados, bem bonitos. E daí que ela soltou, uns dois pontos antes do meu, levantou recolhendo do colo uma mochila creme, colocou-a de uma só alça e puxou a corda, eu desci logo atrás, era uma perseguição interessante, para os outros eu estava andando calmamente mas era como se eu fosse assassiná-la ou coisa parecida, sei lá, sei que ela se vestia basicamente, camiseta branca, jeans, tênis, a mochila pendurada num ombro, os cabelos encaracolados. Pensei até em correr, correr não, andar um pouco mais rápido, fingir tropeçar nela, ou passar a sua frente, virar logo depois os olhos pra atrás e ver seu rosto, mas não, eu não quis fazer isso, era com se a violentasse, preferi só segui-la por mais um pouco.
- E você conseguiu falar com ela?Ver o rosto dela?
- Ela entrou numa agência bancária, parou no caixa, sacou dinheiro e virou-se, era realmente bonita, tinha uns traços finos e uma cara de mal-humor.Tudo bem, não é uma beleza padrão mas mesmo assim me encanta. Eu fiquei parado pra não dar na pinta, depois olhei de canto de olho, alcancei-a e fui atrás. Pra mim não interessava o rosto, era tudo, um conjunto de coisas, principalmente a nuca, e os cabelos, as costas das orelhas, tudo bem distribuído, compatível com o resto, o cabelo encaracolado fazendo nós na ponta do rabo de cavalo, incrível. Mas então ela entrou num prédio, eu tentei chamar alguém mas o alguém não existia, então eu fui embora, é estúpida a história, eu sei, mas era só o que eu tinha pra contar, na verdade me marcou muito, tudo isso me marcou muito.
- Tudo bem.
- Foram os nós que me marcaram, os nós, só os nós.
- Tudo bem.
- Os nós...nós...
- Tudo bem, agora chega, calma, escuta, eu vou te encaminhar pra uma outra área, onde vão poder cuidar de você vinte e quatro horas. Você vai ter que se comportar dessa vez tudo bem?É sua última chance, senão eu vou ter de tomar outras providências, um tratamento mais duro, nem um pouco agradável.Você vai se comportar?

libelo

O pai, que tantas vezes provocou em mim o caos nos olhos com impropérios seminários à mesa, chegava em casa após mais um sol que se escondia, fatigado, os olhos resplandecendo desgosto por mais uma semana e menos cobre, o corpo feito trapo, se arrastando degraus acima. E ao virar o trinco da porta principal, com o mesmo barulho de tantos anos, não iluminou o canto da sala, nem depositou as chaves na manca mesa, pouco antes de ouvir.

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Perdão meu pai!Perdoa-me por não conseguir o que tanto me pedistes!


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Quão bravo era o pai, todo o dia na labuta, prendendo as linhas de camisa, a ponta dos dedos, todo o senso na maquinaria; e ao almoço atravancado, ao prato frio, dedos gordurosos na refeição da mãe, aguentando os olhos dos infelizes homens que, ao ver o velhor persistente, lançavam infâmias de não de não amigos.

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Não és meu filho!Não és nem nunca serás!Lembraste bem do que me dissestes?Lembrastes?Como meu filho?Como?


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Ao sentar á mesa, o rosto lívido pelo cheiro de café fresco, pelo colorido dos pães à cesta, vi minha mãe sentada em lugar distante apesar de perto, olhos pacientes, gesto calmo.
Foi quando meu pai chegou, quando minhas mãos já trancafiavam o pão sadio, quando ouvi minha mãe por entre dentes, "espera..."

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-Amanhã filho vais à labuta com seus tios, acordarás cedo, aprenderás a roçar o solo, plantar e colher, já chega de olhar às ruas por todo o tempo, chega de ser inútil à sua mãe, à casa; és um inútil meu filho mas não deves sê-lo, nenhum homem deve ser inútil e tu não o serás.

-Não vou meu pai.

-Como não vai?

-Não me vejo bem no campo, não vejo o campo como meu lugar.Não vou meu pai.

-Vais.Vais.Não tens amor pela família?Não vês que falta o cobre nesta casa?Não vês que tu só faz faltar o cobre?

-Não falto à família meu pai.Meu amor é sincero e grandioso.Mas mantenho a chama acesa de meu próprio amor.Se não me vejo em um lugar não vou.

-Tua chama é muito mais que isso.É descomunal o fogo que move a ti.Não és digno de ser filho.

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Animal!És um animal!Nada mais que isso!

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Ao presenciar a mãe indo à reza, desloquei-me até seu quarto, principal. Procurar nos guardados a arma da casa era pôr fim a tudo, enfim sentir-me em meu chão.
E, lembrando de todas as manhãs, infinitas, apontei minha salvação á porta, escondido no escuro canto da sala.

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Enquanto as mãos do pai espancavam meus ossos, a cabeça, guia, remoía perdão e lástima.
Pobre pai, não sabia deveras que os grandes amores comprovam-se
até mesmo em pequenos
erros.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

outro dia

Manhã.

Ao lado do supermercado, no prédio de fachada verde e branca, quinto andar, apartamento 501, janela da sala, centro da janela. A menina de olhos incertos mexe no cabelo com dois dedos, a boca semi-aberta, o cotovelo direito sobre o alumínio frio,a camiseta rosa que contrasta com o dia nublado.

Um som quase eterno.

se ela estivesse soubesse achasse qualquer coisa infinita meu amor sentimento dúvida muitas dúvidas milhares de dúvidas onde ela está um dois três quatro cinco seis sete oito nove zero azul a calcinha azul eu de azul naquele dia aquele dia não era azul era cinza tanto faz onde está ela um mais dois três mais três seis mais quatro dez mais cinco quinze mais seis vinte e um mais sete vinte e oito mais oito trinta e seis mais nove quarenta e três mais zero quarenta e três se fosse mais dez seria cinqüenta e três não daria sessenta azul tudo azul onde ela está onde

Um espirro.

O movimento da cabeça – a cabeça vai para trás depois bruscamente para frente, quando volta os olhos estão cerrados, quando abrem-se, lacrimejam.
O que se vê – na inclinação vê-se o céu, os olhos cerram-se, voltam lacrimejando, a visão turva foca um garoto negro de olhos fixos, batendo o telefone.
As mãos – as mãos com o voltar da cabeça jogam o cigarro no chão como por um susto, tremem um pouco.

Devagar ao travesseiro.

ele eu não quero ele eu quero ele mas não e o outro aquele outro Luís o nome dele as rosas na estante pote cheio d´água água mineral Santa Luzia verão muito sol calor praia bíkini listrado o sol óculos escuros a chuva vai cair a chuva o céu está negro e ele onde será que ele está deve ser com uma puta uma puta eu nunca fui puta e não quero ser puta eu não quero ser puta não não quero lavar meu cabelo escovar os dentes prova amanhã Geografia um saco pedras rochas e ele onde ele deve estar e o outro pensando em mim e o outro quantas outras ele deve ter e eu quem sou eu um pêlo o cobertor tá frio tá quente lá fora como está lá fora como está

Ponto 2, olhar 1.

Esperando o ônibus a velhinha de casaco marrom aperta nas mãos as sacolas do supermercado, o mesmo que tem pequenos preços e grande economia. Os olhos já cansados escondidos atrás das lentes grossas filmam devagar o movimento das ruas, os casais jovens de mãos dadas e sorriso claro, os mais velhos de mãos soltas e sorriso amarelo.Um ônibus, muitas motos.Alguns carros.Por onde andaria o 402?Seria uma viagem como em todas as outras compras.Meia hora até chegar em casa, recolher o gato que foge pra rua, arrumar os pratos, os garfos, os copos, de um tudo tem que se fazer pra manter uma vida em ordem.

“Opa!”

André andava decidido, era hoje, claro que era, não poderia deixar de ser. O dia continuava cinza, a mochila era leve e ele pensava em tudo, José Saramago, aviões, a loirinha da padaria, o filme do Tarantino, uma vassoura de folhas.
O sinal fechou, os segundos contavam decrescentemente e André focou-se no 10, 9, 8,7...saiu correndo e chegou no 1 ao outro lado da calçada.Desviou de uma menina de blusa branca mas não escapou da velhinha que se encontrava no ponto.”Opa”, disse ele, e, olhando a velhinha de olhos engraçados por trás dos óculos, seguiu em frente.

“eu...”

O telefone tocou, estridente, três vezes.Camila atendeu com ar cansado.
-Alô?
-Sou eu.
-Oi.
-Tá bem?
-Sim, tô.E você?
-Legal.Tô em casa.Quer sair?
-Não, tô cansada.
-A gente tem que conversar.Desce.
-Prefiro outro dia, hoje não, tenho muita coisa pra fazer, prova...
-Por que?
-Por que o que?
-Nada, esquece...eu...
O silêncio alongou-se por segundos rápidos.Do outro lado, a linha caiu.

Ponto 1, olhar 1.

Juliana atravessou a avenida principal de olho no cronômetro que corria no semáforo. O casaco preto fechado à altura dos seios, por baixo a blusa rosa manchada de café. Eram horas vazias aquelas do início da manhã, a aula era à tarde.
Os olhos vivos e castanhos raiavam inertes, nada acontecia há tanto tempo que os rostos da rua pareciam máscaras disformes, aleatórias a qualquer observação.

Tudo.

André postou-se à frente do orelhão. Olhou ao redor.A rua cheia de gente irradiava pressa.Um homem de meia-idade, tranqüilo, olhava o nada sustentando um cigarro na mão direita.
Olhou as teclas negras, enfiou o cartão, digitou o número e enquanto esperava a outra voz aparecer somava os números.Nunca o resultado era com zero no final,nunca.Onde ela estaria?
Ela atendeu, disse que não, disse tudo menos o que ele queria ouvir, disse nada.
Os olhos sérios focavam o interior empoeirado do orelhão.Bateu o telefone sem ter mais o que dizer.

Ponto 3, olhar 2.

Juliana chegou ao outro lado da rua. Uma mecha de cabelo habitando parte da visão.De trás do orelhão saiu um garoto negro de olhos uniformes. Juliana o olhou por alguns segundos, segundos que pareciam tempo ganho. Ela baixou os olhos, seguiu pra casa. À janela o céu cinza parecia clarear, e o mundo de cabeças abaixo parecia ganhar vida, como uma música que se toca no verão.