segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Dois tempos

O punho cerrado fechou os olhos azuis desviando os nós para a rua pouco iluminada, não vendo a blusa de lã cinza-já-gasto abraçar o chão de mesmo tom; dolorido, se abriu feito planta dorminhoca aos ki-chutes empoeirados dos moleques da quinta série do colégio público em divisa ao terreno baldio.

A carreira escalou narina adentro ardendo a cabeça, rodopiando os olhos; o resto esfumaçado no encosto da pia de louça verde-maçã-verde fora raspado por dedos contíguos e trêmulos e esfregados no aparelho de borrachinhas azuis. Era hora - os olhos verdes focaram de súbito o espelho retangular, sorriso aberto.

O tempo daquele Junho era frio e seco, pelos lados da Vila vizinhos retiravam as cadeiras de plástico da beira da rua, mais pelo vento do que pelo céu nublado que abraçava as cinco horas da tarde do Sábado. Nos quintais, cachorros se recolhiam às casinhas, caixas de biscoito – teto pra frente e cobertor ao lado; as salsinhas, tomates pequenos, ondulavam.

Maninho assistia ao Botafogo e Figueirense com os olhos quase nulos, as duas caixas do Bar da Lôra tamborilavam na testa, mas ao alarido do pai, um corpo mulato, nebuloso e gordo, sacolejando os braços e as pernas, quase gritou qualquer coisa

- passa aê bróder. Passa aê bróder. Passa aê porra. Passa, aê. Valeu, valeu. Ahn? Deixa mais um pouco só

- Não, vamo fazê a parada sim. Quê? A Marina o quê? Ce ta onde Celso? Hein? Ah, ta dirigindo...então fala rápido pô; a Marina não quer? Ô Celso, então você vem e depois tu pega ela. É, ué. Ela não vai sair hoje? então, chega aqui, a gente sai umas onze, onze e meia e pega ela lá; não cara, eu vou de carro, tá tranqüilo, beleza então?, você vem? Não, a gente deixa o Michel e a Dani lá e depois pega ela, beleza? Então valeu, um abraço.

ADIDAS

MADE IN CHINA

BR US UK FR

42 10 91/2 44

Três amortecedores e o pardo solado

sinuoso pousaram no rosto branco,

barba por fazer, sentindo amena

resistência da carne. Outro pouso,

queda brusca, mais dois, mais três

e a massa cor de maravilha

dimensionando o céu

A barriga do bigodudo sacolejou conjuntamente ao marrom da sacola de pães, o embrulho foi sugado pelas unhas negras, escondido ao lado do cotovelo nu às seis da manhã fria; o movimento era fraco, algumas senhoras antecipando o café e, virtude da missa das sete, três garotos e um casal voltando do baile funk. Os pés negros na sola imbicaram, quase largando as havaianas no caminho, pelo beco ao lado da loja de materiais elétricos, promoções, pagamento em três vezes, telefone três quatro meia dois zero zero dois nove; as costas da camisa branca sem estampas esmurraram o muro da loja em construção, dedos ágeis vomitaram da sacola dois pães com manteiga pelo chão, dentes cerraram a massa, a manteiga rebolando garganta a baixo.

- Como é que é bróder? Ta querendo o que aí?

- Responde mermão

- Pera aí cara, pera aí.

- Ai!pera aê...

- Pára com isso rapá! Ta maluco!

- Putaquepariu.

- ( )

- ( )

- Cala a boca mermão! Cala a boca filhadaputa!

- ( )

- ( )

- Bora, bora, bora!

Emanuel, letras em grafia vermelha arredondada, triângulo azul-escuro ao lado esquerdo do peito; o pano azul até os joelhos morenos, Emanuel em branco, letra de fôrma – os olhos verdes passeavam pelo solado amarelo do pátio: a tia da cantina, o coque branco livrando o suor da nuca, serve um líquido laranja em mini-copos plásticos; a sala da sétima série aberta - a sala da sétima série aberta, a janela contemplando o terreno baldio. Correm os pés no ki-chute preto, nós e laços à altura da canela alcançavam o interior da sala, três movimentos: ponta do esquerdo no tampo da primeira carteira da fila da professora; meia sola do direito no parapeito, duas solas no barro claro do lado de fora – seguem correndo imprecisas (as mãos arrancando a camisa, os companheiros atrás) até chegarem à entrada da rua da Carroça, após a linha da Rede, no recanto de marias dormideiras lado a lado com o altar da Nossa Senhora de macumba.

Maninho desceu as escadarias do REX cauteloso, o som, as cervejas, a coca, os lábios da morena indefinível de pêagá em alguma faixa do nome com ípsilon no final rodopiavam a visão; atrás Celso, Marina, Michel, Dani, Cláudio que chegara do Rio há pouco, outra, agora loira, indecifrável – o Adidas preto vacilava os degraus cinzas. Olhou-se no espelho anterior ao hall de entrada: a blusa de lã vinho amarfanhada, os caracóis dos cabelos para o alto, a faixa que os sustentava quase à testa, olhos vermelhos. Na rua, a madrugada com cheiro de ontem, acre perfume no muro da praça, dobrou a esquina da sorveteria e viu um vulto cinza balançar o Palio vinho,

Além Paraíba- MG

GUS- 4677

As mãos sujas fecharam o zíper, na boca o gosto doce do éter (lábios dormentes), os olhos insinuantes pela parede da fábrica desativada – o chapisco do muro em cinza claro-escuro, desenho irregular; a parte amarela céu acima descascada, marcas de infiltração, pichação SAARA. As casas à esquerda pareciam iguais, retângulos a pouca luz; as havaianas de tiras e solados azuis mastigavam os paralelepípedos irregulares, carros, outros carros, muitos carros, um casal de namorados, o som do baile estremecendo o tempo frio, dois moleques dividindo um baseado enrolado em conta de telefone – RUA DR SOBRAL PINTO 378 : Júlio se demorou sentindo os lábios flamados pelo papel, quatro mãos tentavam lhe arrancar o cigarro. Levantou-se enfim, apoiando as costas nas pedras da murada, sentindo nos ralos cabelos as plantas acima – o relógio digital por dentro do carro, 04:31.

Júlio, não mais o nome na camisa e nos shorts – sétima séria, carteirinha azul marinho (Júlio de Almeida Lima/ FILAÇÃO: José Lima; Márcia de Almeida Lima), colocou os pés na calçada da Ilha, um rápido movimento de olhos – a Rodoviária o muro do Tênis – e se embestou a ladear o albergue, os terrenos baldios e empoeirados, lado a lado, as ex-pontes se desenhando de cima pra baixo; juntando-se em seguida, mesmo que de longe, aos moleques da quinta série que, fugidios, esmagavam plantas logo após a linha do trem. Seus olhos azuis replicaram rapidamente aos primeiros sinais da chuva, vendo logo após um moleque aloirado chutando a santa do altar destinado a despachos, quebrando-a contra o chão – os moleques se esbaforindo rua da Carroça, Sete, Primeiro de Maio.

Maninho socou as mãos espalmadas na blusa cinza e rota, chocando as costas do quase-ladrão no muro, deferindo o primeiro soco com raiva, diretamente nos olhos azuis vermelhos vermelhos azuis (chão para o céu), marretou a sola do tênis ao rosto do sujeito – sete vezes, até ser puxado por Celso.

Júlio observou a pequena fresta na janela do lado do motorista, o relógio digital, o éter, a maconha, hipnotizavam; quase equilibrado tentou enfiar as mãos no interior do carro sem contar com o limiar do intervalo, com os fios despregando-se da manga longa da blusa puída, se agarrando ao vidro – com ódio, sacudiu a porta parando apenas com um empurrão.

O tempo daquele Março era seco e úmido, pelos lados da Vila, Caxias, última Ilha, vizinhos retiravam as roupas do varal pelos pingos de chuva derramados do céu negro que abraçava as onze e meia da sexta-feira. Dobrando a rua Sete, dois meninos, o de shorts azuis e olhos verdes, e o de olhos azuis e jeans, desembestavam-se pela calçada estreita da quadra da Rede – um pela chuva, outro por uma santa. À bifurcação da Sobral Pinto, partiram à direita em direção à Praça da Bandeira.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Rosa

O mundo onde nós somos, entre muros, na manhã que raia logo ao lado não percebendo que o tempo interno não se molda em barulhos, sons que dizem já é hora; pois hora agora, sentir que o clima aqui é frio e confortável e não há determinado momento mas interminável instante. Se os dedos percorrem dois corpos e equilíbrio, idéia, já não importa, é porque não está, abriu-se o possível. O que saber do tal sentimento senão apelidos; e esses são códigos, ínfimos, peculiaridades exageradas que falsamente representam o todo, e se este inexistente. Não acendamos a luz da porta pois o muro acaba, e ainda há falta de revés, desconstruir-se construindo, procurar espaços, atá-los. Por aqui, só o mundo, apenas esse, é nosso.

Morada

“Nascer é conjugar-se ao contrário”

para Carolina, pelo duplo desafio.

Os passos moviam-se pelos cômodos de dias quentes, cada palmo em tranqüila ocupação até chagarem a fora, percorrerem a ladeira cinza que meses antes se banhara nas águas barrentas da enchente, ladear o canteiro de frutas pelo chão, se assustarem com a cachorra de pêlo negro e poeira a se encaracolar nos troncos das árvores, pararem a ouvir o canto dos passarinhos enclausurados em pregos por cada canto de muro.
- Vocês vão ver que passarim é bicho pra ser liberto, pra ter casa, amigo, que nem gente; né não canarim?
Estávamos atentos ao trabalho do velho, todos vendo-o dias sem cessar com o Carlim, carregando o cimento, movimentando a massa; e á noite, antes de postar-se na poltrona única frente à televisão, rachando os bambus com a faca e o esmero, pregando algum pedaço de madeira noutro, desenho indecifrável. E todos ficamos boquiabertos na manhã que irrompeu clara e flamejante, no viveiro que surgia no puxadinho recém-baseado ao lado da cozinha; o quintal diminuíra mas a construção nos fazia esquecer, uma profusão de passarinhos multicoloridos, periquitos que iam e voltavam dentro da caixa grande de concreto, entravam pelos apartamentinhos de bambu no canto alto do espaço, pelas casinhas de madeira no baixo; e ajudávamos a lançar os bichos dentro do novo lar, e vimos, todos, o coleiro que ainda pequeno desprendeu-se de uma das mãos, voando o mais alto que o longe pôde alcançar.
- Deixa ele, deixa ele. Esse pensa que é mais livre que os outros mas vai voltar, vai voltar.
Ele disse, mas nem o próprio sabe se o fugitivo voltou. Entre anos ainda abastecia o viveiro, porquinhos da índia, dois patos para o poço d´água ao lado direito, mais passarinhos; mas a cama o acometeu e ele pediu que os dessem a alguém que pudesse cuidar, deixassem só uns cinco de sua preferência e dos quais poderia ainda trocar o chão da gaiola, a água, o alpiste; resolveu também reformar a casa: mais um banheiro, ampliar a cozinha, um cachorro novo e pequeno para o lugar da grande que se fora.
- Você vai, mas volta pra ver o velho, a casa, tudo. Todo mundo tem de ter gaiola nesse mundo.
Eu sabia que um dia, desses dias em que se pára, eu estaria ali. Mas não era o mesmo lugar, já que o velho não mais se levantaria para cuidar do canário, a velha não passaria um café, tiraria o pote de biscoitos de nata da última porta do armário. E ali, aqui, mesmo que não o mesmo, ainda é, apesar da cozinha ter avançado um pouco mais, do quintal quase nulo, do cachorro descomunal que choca o dorso contra o alto portão de ferro assustando o moleque (dois anos apenas) que vem se encaracolar entre minhas pernas, ainda está, ainda estou, e tudo o quanto disse, e como disser, não passa de verdade ou mentira, apenas história.

à memória de meus avôs

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Verão

Um derby amarelo cuspido no chão, a cabeça do homem sentado na rodoviária – pêndulo, o tempo se fechando no pêlo d’água: a mulher limpa, pele clara, pretende sentar ao lado do homem, logo após o cigarro cuspido, mas o olha de lado e vai ao guichê de uma das empresas de transporte rodoviário; um moleque mirrado corre com um pacote de biscoitos de polvilho aberto (algumas argolas brancas caem do plástico no caminho constante trançado por pernas), rodopia ao alarido da mãe e seus calcanhares amassam um derby amarelo no chão; a atendente do Café separa a nota em melhor estado e oferece-a de troco para o motorista do ônibus que sairá em seguida, ele agradece o refrigerante com um sorriso por trás dos óculos escuros e ela vê sua camisa azul com marcas de suor nas costas indo em direção ao ônibus parado na vaga doze, desviando do homem que eminente em se levantar faz dos braços alicerce.
Nos ladrilhos, paralelepípedos sinuosos, nas terras batidas ao lado do rio, no asfalto que ferve em frente à rodoviária, no solo rugoso dos quintais, na grama das casas que as têm, o vento vem varrer os objetos soltos pelo chão: folhas, copos plásticos, papéis de bala, um gato minúsculo e desavisado.
A chave é virada na ignição roncando o motor: o motorista se posta à frente da porta de entrada do ônibus; a mulher do Café empilha paçocas na prateleira mais baixa; o moleque e a mãe formam o início da fila frente à camisa azul; a mulher clara e limpa também se encaminha para a vaga doze, mas a dois passos seu telefone celular toca e ela rodopia dando as costas para a fila, para o ônibus; o homem consegue se levantar, dá três passos e, próximo ao quarto, gira o tronco e cai estirado no chão cinza; um faxineiro de uniforme marrom, com as inscrições da prefeitura municipal em letras negras, salta o homem deitado e com a vassoura recolhe a uma pá um derby amarelo já apagado.
Com o vento, a chuva não cairá.

Conjugado

São dois pontos: o quarto e o resto. No quarto passeia os olhos nas cartas muitas, firma-os na letra miúda e curvilínea, tudo feito rodeada pela pele alva do lençol, a luminária acesa. No resto, tateia as oito gavetas da cômoda ao lado, corre pelas paredes o som da televisão até serem encontrados os álbuns, o papelão já gasto, os plásticos portadores amassados: todos eles têm um sorriso na capa, um dia de sol. O encontro é entre o vão dos pontos, gélidas estão as mãos, e o fim é um eterno e minúsculo beijo de olhos abertos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Diário

O dia das pêras
é o seu apodrecimento.
(Ferreira Gullar)

Trabalhava concomitantemente aos sons da rua – liquidificante turba de passos e vozes, ringtones, buzinas e sirenes em nula sinfonia - empacotando batatas palha, da onda, biscoitos e latas de derivado conteúdo; contando os centavos do troco, as horas, desembaraçando os cabelos e notas encaracolados no caixa, os dedos tarântula esperta a buscar chicletes, tatear de cor cigarros a varejo, cartões telefônicos; fumando escondida ao lado do forno de pães (nebulosa): o suor deslizando-a na fronte, empapuçando o pescoço, jogando-se seios abaixo.
E ainda era domingo. E sempre era domingo, segunda, terça, dia; a avenida Rio Branco à inclinação direita do pescoço, vazia, solapada pelo sol. Nas mãos um jabuti, seu clã na outra atendente, no caixa, na faca lenta do nordestino semi-morto a rasgar o papel-filme.
(Ela embala frangoassados, fecha quentinhas)
E o tempo.
Os cotovelos dormitando no balcão gorduroso, os braços da colega se firmando na comanda de papel, nas coxas finas (1 coca 2 pastéis); e o tempo no encrostado caldo do nhoque, na face rugosa do feijão tropeiro. Lá fora a tarde pelejando a se fechar.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Em antes

Era o disco da capa branca, os escritos em preto e vermelho, a guitarra, som fino, ecoando pelo cubículo, luz nenhuma, só as pontas dos cigarros acesos. Sentaria se houvesse espaço entre o som e o sofá negro pela noite, time is like a broken watch, mão qualquer toca o cinzeiro branco de porcelana roubado num dia chuvoso em bar de esquina, PODERIA VIR AQUI PRA CIMA, sentiu alguém afastar as mechas sobre o olho, a voz dele é boa, parece cantor de ópera, a banda é boa, amanhã teria de acordar cedo, prova, trabalho, DEVERIA SABER, acende a luz, os contornos se abraçavam na palidez amena da lua cheia, deixa como está. Resolveu irromper, subir, por fim, TALVEZ, com o cigarro quase guimba entre os dentes, as pernas borboletinha tá na cozinha fazendo chocolate para a madrinha, os cabelos roçavam a nuca, AGORA.

Agora,

Ainda não.

Sim.

Não.

A língua se encaracolou pelo lóbulo direito, as mãos na altura da barriga. TE AMO. TE ADORO. ODEIO SEU CAFÉ. ADORO TEU JEITO DE SER SEM SER. CONTINUA SENDO.
Os dentes se chocaram, riram.

- Que foi?

- Nada, você não sabe.

Apagaram os cigarros no chão errando o cinzeiro. A madrugada arrombando o céu.

Todos os mistérios movem-se pelo sol

domingo, 28 de outubro de 2007

Episódio um.

Dois moleques jogando bola á frente do muro cinza, alto, shorts com listras brancas nas laterais, camisas amarradas na cabeça – as havaianas gastas demarcam o gol, fazem a trave; o travessão imaginário – o quanto o goleiro pode alcançar num salto médio com os braços esticados. Enquanto o negro prepara-se para bater o pênalti o branco bate palmas olhando-o atentamente. “Júnior o camisa cinco do Flamengo”, o moleque negro soca a ponta do pé na bola oval dente-de-leite, a ovesfera sai reta, sêca, esmurra o joelho do branco que cai no chão de areia espinhoso após um salto semi-lateral. “Defendeu Zetti”, o moleque branco se afoba em levantar-se afastando a areia do corpo, olhando o companheiro que, derrotado, procura a bola. “Cadê?” e os dois se entreolham, enxugam o suor dos peitos e das testas, os pés afoguentados pelo sol que a bananeira una não consegue segurar.
O caminho é o mesmo, sempre, morro São Sebastião, no fundo à direita, o muro cinza e alto com espécies de repuxos quadrados de concreto, à frente os barranco-quintais das casas ao lado da subida. Se fosse abaixo dificilmente reaveriam a bola, presa em mamoeiros ainda novos, troncos decepados de bananeiras podres; era se embrenhar pela lama úmida e marrom da lateral direita, descer pela floresta de mangueiras que rodopiavam em dia de chuva forte, procurar a cor parda da borracha no desenho escuro do matagal. “Bora, pega o chinelo aí”.
Os dois, tateando com o solado azul claro o chão escorregadio (tinha chovido, Janeiro), passaram pelo barraco de compensado, quase porteira do matagal, fechado, nem a fumaça habitual do fogueirinho em lata de tinta Suvinil, tudo um deserto, encaminhando-se para as folhas longuilíneas de verde óbvio, os troncos abrutalhados das mangueiras. Chegaram ao fim do curto caminho após poucos passos, nada da bola apesar dos olhos ávidos a cada canto. Para baixo o barranco rugoso ameaçava tragá-los pela trilha de folhas e mangas por apodrecer, círculos de mosquitos, formigas bundudas, garrafas brancas de iogurte ALÉM, uma caixa de boneca com o símbolo da estrela apontando o céu; a casa em formato de trem, enorme do passeio da Sobral Pinto, parecia um brinquedo vista tão de cima.
Um colerim ainda tapeava o canto quando decidiram voltar, chateados por não encontrar a bola, e o negro nem ouviu o estalado tombo do amigo no chão escorregadio do caminho de volta, sequer lhe deu a mão para levantar, antes gritou “ali” e procurou descer o barranco com cautela, pé direito à frente, mão espalmada como apoio. O branco levantou do chão dolorido sacudindo os pedaços de folha sêca do peito magro, hesitando a descida do amigo que virava o pescoço à esquerda e para cima dizendo um “achei” entrecortado pelo sinal da Rede, cheio de cuidados para não escorregar. “Vem”, o negro movimentava o braço esquerdo, os olhos arregalados de quem descobrira um presente, e o branco abraçou com os dedos das mãos os chinelos utilizando-os como apoio, e ia descendo o barranco de costas pro céu com medo de ver o chão mais de perto.
Cada moleque descia à sua maneira, o branco olhava fixamente o marrom da parede escalada ao inverso, por vezes apertava os olhos para espantar o arrependimento. Já o negro, que concentrava o temor nos joelhos, tateava com o chinelo esquerdo bamboleando a planície semi-segura próxima à réstia parda, talvez-bola, por entre o amontoado de folhas secas. E se ajudavam,o branco sentira apoio nos braços finos do negro que enlaçavam suas pernas, teimosas em arranhar o barranco, o negro ouviu do amigo a frase como sorriso, “a bola ali olha”, e quatro braços vasculhavam as folhas a revelar o todo da face parda da bola que não a era.

Uma face de homem, barba por fazer, olhos semi-abertos congelados no sol a pino de um início de tarde do primeiro mês.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Outra história.

para Laura e Patrícia

Guilherme a beijou na fronte, seguiram os lábios, duas camadas de pele fina em vermelho claro, semi-doces, frios como ponta de garfo, acolhedores em demorado silêncio. Ainda os narizes roçaram, as maçãs do rosto comungavam no calor das respirações, e as mãos apertaram-se levemente antes dele se direcionar a porta. Ela entrou no quarto, tirou a blusa e viu no espelho os cabelos castanhos e ondulados a cobrir os seios médios, rijos, ligou o som numa bossa-nova baixinha e foi guardar a camiseta preta junto com as outras no armário, retirou da parte dos travesseiros a camisa branca de malha, dele, e deitando em concha por cima do edredom sequer percebeu as duas quedas de luz subseqüentes, a faísca pequena na tomada do stereo à volta da eletricidade.
A manhã rompeu como Guilherme pelos corredores do pronto-socorro, confuso, os óculos desajeitados. Seu corpo só parou por dois enfermeiros que pediam calma, falavam não, informações a ele imperceptíveis. Por dentro do janelão de vidro, envolta num cheiro acre, estava ela, desenhada em ataduras, os olhos semi-cerrados.
' Passaram-se quinze dias desde a vista, mas ele não sabia do tempo. Quando enclausurado em si o tempo é quando e onde lugar que não existe. Guilherme já divisava os tacos de seu chão, os sabia quantos, por quê, diferentemente um dos outros; a cama era não mais um pouso mas paradeiro, estável, recorrente, e o teto, gélido, parecia o contemplar com ironia no olho único. Não mais sentia temperaturas ou cheiros, ignorara o celular ao fundo de uma gaveta, e quando este gritava as almofadas o abraçavam pelo rosto, os olhos maquinavam paisagem qualquer.
Mas a qualquer dia as pernas produziriam movimento involuntário e o corpo erguer-se-ia num espasmo. Guilherme levantou-se, vestiu roupas, escovou os dentes e sem perceber limpava os óculos dentro do carro. O veículo tinha destino certo, a outra ponta da cidade, e por sinais vagava intranqüilo, lento. Do momento em que os faróis iluminavam a álea escura ao ponto em que seus olhos divisaram a porta trancada não sentira nada, talvez frio, mas pouco.
- Nós vamos sair hoje.
Disse isso antes mesmo de entrar no quarto, de vê-la encolhida na cama, o rosto como que mascado, o nariz levemente torto, os cabelos nulos; antes mesmo de a beijar os lábios e em seqüência a fronte, de sentir dela um calor por vezes não contemplado, nos olhos. Guilherme sorriu, um movimento curto, desacostumado pelo tempo, virou-lhe as costas e abriu as portas do armário, e já com o ato em mente contemplou a extrema quantidade de roupas, camisetas pretas e brancas, saias grandes, pequenos casacos de crochê.
- Nós vamos sair hoje.

Amy Winehouse (ou Outros Rostos) (ou Restos) (ou Dores, demônios e outros impossíveis)



Se vem aqui é por algum motivo, um recado, desejo.

A fumaça azulada escala o vidro fosco da janela, encontra no basculante escotilha, se perde pelo céu sexto andar a cima. A casa está posta, a mesa-tampo-de-vidro ladeada de cadeiras, sofá amarelo abraçando a colcha de retalhos, TV cega, som semi-mudo sussurrando. Se está no centro ou de lado, a sala, a luz, ele, tanto faz; nada a saber de nada e a escuridão a insistir entrada rompendo o dia.

Se, é por nada, coisa alguma. Ainda estou de fora.

PLUMA

o contorno da mulher, lado esquerdo, na câmera de segurança, a bolsa suspensa no abismo do ombro, sai do vídeo como onda calma, a mão espalmada pede licença à porta de madeira número seis. Dos olhos fixos (603) o branco se confunde à porta; o corpo a seguir – irmão de cor da campainha. (A ponta dos dedos não hesitam) e a entrada é bravia, da voz a tempestade; há tempos não se formavam nuvens, por vezes a chuva cai. Num festival de braços, esquadros, tombos prováveis, dois corpos são um só e o vazio estampa as paredes claras, o tampo-penduricalho-pizza-promoção da geladeira alva, o silencioso flamejante olho do teto recém-aceso.

De três duas você perde

Todas você perde

EU VIM AQUI PRA

Do lado de fora um janelão de vidro fosco, único, mal visto por andares acima, opostos. Descortinado. O chão traçado por roupas esbugalhadas, calças jeans, blusa amarela, blusa negra, meias, sandálias, tênis, um cordão de ouro – trapezista metade de um sol.

PEDRA

indicador, dedo médio e polegar em comunidade enterrando a guimba na cinza, a mão direita vasculhando outro maço na mochila, os olhos surpresos, a boca ruminando réstias de sonho. Indicador, dedo médio, polegar e todos os outros na maçaneta, festival de silêncios nos olhos e nos corpos, cada traço singular a outro. O corpo branco que descobrira descobriria o amarelo tossindo a procurar assunto cada vez mais nulo. Sem braços nem pernas nem sexo mas a forma ilógica de dois corpos num só, proclamações abafadas, intervalos superados no paladar.

ligação dupla

instável

metil-etil

A CULPA FOI MINHA

Se viesse aqui me assustaria

O teto claro e bonito com a luz no fundo de tudo, imutável. O inferno do repetido, a dor do mínimo toque mínimo, impossível.

Se fosse lá não iria por vontade

sábado, 6 de outubro de 2007

Viagem.

A paisagem negra como a noite mas sem ninguém horrendo a dançar.

5

Um homem de aparelhos diz coisas sobre atitude, reação, vontade, deixa de observar o campo ao seu redor, conclui o raciocínio com a idéia de vitória.

7

Um homem de língua presa fala do prazer de estar daialogando sobre o futuro e o passado com um cidadão de microfone dourado. Ao lado deles um rapaz de cabelos empastados de gel segura um saxofone e sorri para mulheres que gritam seu nome seguido por um "eu te amo".

10

moreno vai de encontro ao público exigindo que todos fiquem agachados movimentando a pélvis, são senhoras e meninas dançando com olhos fechados, aplaudindo logo depois.

12

um homem magro de terno diz que o evento começará às oito e meia e terá muita gente bonita.

18

um rapaz e uma moça alternam-se segurando um cubo negro. Com o cubo nas mãos ambos procuram um botão que, se apertado, emite a mensagem "passe ao companheiro".

22

homens e mulheres sacodem jornais cantando ao mestre criador.

45

uma mulher versa sobre o que se deve fazer nas escolas, como tratar as pessoas, os excluídos, os famigerados, os menos esclarecidos.

O botão vermelho cessa a jornada, como um espasmo. Não, não deve ser bem isso.

Lugares

Sombra da goiabeira.
A menina deitada, vestidinho antes branco, pés cobrindo uns aos outros, areia nos braços, olhos vermelhos, castanho dos cabelos embaçado.
- Nina Nina
Predileta do pai, gostava de sentir o cheiro dele no envolver dos braços, carinhos em barba espetada.
O muro.
Da vizinha a mãe não ganhara ajuda, por isso estava aí, tombado, as juntas de cimento, as vigas já gastas.
- Que é isso filha?
E das mãos delicadas sentiria leve o toque, macio, o rosto sereno, de anjo, os ohos azúis da mãe. Mas não. Hoje em olhos molhados, sem tato, dor.
Vem você Baixinho, vem você Baixinha, tem muito desenho... - Maria. Ô Maria!
O rio lá fora.
desce desce as escadas rápido rápido pés trepidando os degraus cinzas cinzas as águas barrentas do rio do rio subindo descendo subindo descendo a cara no chão
- Maria tá aí menina?
- Não
- Posso esperar?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Mãe.

Já deram oito horas, já se fazem seis anos quatro meses e quinze ou dezesseis dias, a mesa está posta, salada de repolho cru e pedaços de tomate e cebola cortados em cubos, a carne picada com o caldinho boiando no fundo da vasilha transparente, o arroz, ela traz o feijão na panela, o cabo laranja a se revoltar pelo líquido. Busco a jarra de suco de caju e dois copos com desenhos laranjas e azúis, um mosaico estranho, sem sentido. A feitura dos pratos é quieta, ponho as pequenas porções de feijão e arroz, um pouco de salada e exagero na carne, ela come pouco, duas colheres pequenas de salada, um pouco de arroz e uns quatro ou cinco pequenos cubos de carne, serve meio copo de suco para ambos e alinha o guardanapo em v por baixo do prato. A refeição ocorre em silêncio de palavras, barulho apenas nos talheres e nas arcadas, meu garfo range a louça no fim, engulo o suco e faço menção de sair, a foto do homem gordo, camiseta cinza e shorts vermelhos, sorrindo para lado diagonal à câmera fita-nos à mesa; ela recolhe primeiro os copos, empilha posteriormente os pratos e sobre eles põe os garfos, facas, colheres e a concha, faz do guardanapo esfera e o joga dentro da vasilha com as carnes já devoradas. A quem menos espera o telefone pode tocar, um toque a cobrar ou trivial. Nos olhamos, ela vai à cozinha sustentando o monte de louça, eu recolho o azeite, a jarra de suco, o porta-guardanapos.

1/3.


a três ou quatro anos




Tal qual amanhã igual à ontem, era o nome de um livro, dizia sobre jovens se embebedando de Contini, ouvindo Legião Urbana, você lembra de Contini, Contini rosé, sei lá que gosto tinha, estranho, parece que nem passei três anos da minha vida tomando essa porra, dizia isso com as mãos no vento, os movimentos do braço, caindo no ar, os cabelos esticados quase soltos meio presos num vermelho estranho cor de tapete, o livro ainda estava na cabeça, ia ser preparado, mais ou menos uns seis anos pra escrever, depois Jabuti, traduções pro italiano, coisas desse tipo, depois era se dedicar à carreira ficar enclausurada num sítio que só fizesse frio, um cachorro, criação de beija-flor, você lembra da Fê, lembra da Fê, pois é casou, vinte e cinco anos e casada não dá pra imaginar uma parada dessa, imagina eu casada, com você, imagina, divórcio certo, jogava Tarô quando conheci, mas nunca dei valor, umas cartas de desenho estranho e ela dizendo que minha vida ia mudar, que encontraria uma loira, porra nenhuma - ninguém, mentira, tinha aquela, Fabíola, Fabi, Fabiana, isso Fabiana, uma branca de olho verde com umas pintas na cara, ainda tem muito pela frente, estranha aquela menina, não falava não bebia e você sempre bêbado com o Hollywood vermelho manchando o dedo, começava a fumar com o dedo mínimo e o seu vizinho pra não manchar demais, eu nem sei como você conseguiu parar de fumar fumava tanto, nem sei que esforço é preciso pra isso, algumas tosses mas nada demais, os pés em borboletinha as mãos batendo nas coxas quando falava, nem lembro disso, liga aí é três dois três dois meia quatro zero zero, mais quantas cinco seis, oito, mais oito, já foram dez, mais oito porra, desaprender, desprender, e os shows que rolavam atrás daquele bar, depois a molecada toda sentada na calçada, bebendo, fumando, lual na praça, até as três quatro da manhã, você tinha carro na época, nem podia, imagina levando o povo todo pra casa, umas três viagens, quatro, Maurício morava longe, pega aquele negócio na gaveta, na do meio, isso o verde, aumenta o som, um pouquinho só adoro essa versão que ela fez bem melhor que a original, todos de camisa preta reunidos, todo mundo gostava do "Que país é esse?" alguns só gostavam desse, Legião punk cara, batendo cabeça em frente ao palco, beijei-a umas três vezes nesses shows, olha a Fê Maurício, você lembra desse cara, o papelão e o plástico já gastos, era muito melhor nessa época, nossa época, era muito melhor não tinha essas máquinas digitais, ninguém tirava foto e ia depois ver se ficava bonito ou não, se saiu com o cigarro aparecendo, você sempre saía com o olho fechado, uns seis sete oito juntos na mesma foto, um em cima do outro, Carlos Carlos alguma coisa, Antônio, Antônio Carlos, não Carlos Antônio, faz medicina eu acho, em Vassouras sei lá, a luz já ficara fosca com a fumaça, umas garrafas no tapete, cinzas marcando o bege, pula essa não gosto dessa, calor, quase insuportável mas sem lembrar do de lá, um calor que colava no corpo, que incomodava o ventilador, eu quero morrer com setenta e cinco, igual o meu avô, setenta e cinco, velhinha, não vou pintar o cabelo não, vou deixar tudo branco, e grande, poucos livros na estante, do dela do meu quarto, pancada de cds reunidos até seis anos atrás, poucos a gente ainda ouvia, vou fazer vinte e seis branca, mas você já é formado, tem emprego, eu, jornal de merda, revisor, emprego de merda, pouca grana nem pra morar em república direito, ela pagou as cervejas as que foram e as que chegaram há pouco, curso de filosofia três anos, longe de formar, atendente de loja de marca, tinha que dar vários sorrisinhos dizer que estava ótimo, foda-se foda-se mesmo o Lula a porra toda foda-se, reúne aí só vocês dois, um braço longo desconexo a mão direita atrás do corpo pra esconder o cigarro eu sempre inclinava o pescoço a cabeça de lado em cima da dela um sorriso largo de sempre, ela, coloca o "Descobrimento", décima sétima, não não essa não porra não não tô a fim dessa hoje coloca a primeira, ainda era bonita o cabelo era estranho mas era bonita, e agora tinha que andar mais arrumada pra trabalhar umas calças justas que marcavam bem as coxas, ainda magra, um pouco de barriga, mas ainda magra, o sorriso mudou um pouco mas ainda largo, " e vinte nove anos me saudaram e tive vinte e nove amigos outra veeez", nós no fundo do bar, de pé, eu de bermuda chinelos e camisa branca, ela de short jeans, camisetinha preta, o Franco aqui atrás aqui, minha cabeça inclinada pousada lateralmente em cima da dela, dois sorrisos largos, tem mais, adoro essa música.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

até agora

andava cambaleante pelas ruas as calças rebolando nas pernas a barriga sacudindo flácida um olho em cada paralelepípedo desconexo mais um cigarro toco no chão ponta do tênis amassa a brisa da madrugada ventava o corpo inteiro alguns minutos na caminhada um cão devorando o lixo um casal de namorados um carro seguindo reto tenso as mãos se entortando nos bolsos um pigarro vista trêmula sede a pele ressecada pelo suor a luz grossa dos postes novos invadia a porta a chave os outros olhos

sábado, 15 de setembro de 2007

"...o pecado,"

Rédea, mas cavalo sou forte, rompo com o dorso as grades do estábulo, divisando o horizonte de campos: caminhos sem fim, sol a morrer em lua, outros bichos; e a partir do contato - os membros ao capim sêco, os cheiros de final e princípio - realizo transpirar confuso, dos olhos o fundo trêmulo, relinchar audível daqui dentro - escuro simples.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

E o rio

Quase que sem flores inicia-se a trama, estorinha simples de passar por pouca atenção dos ouvintes. Estava o velho estirado, calça negra sem vinco, os mesmos sapatos rotos - meias ausentes, blusa de mangas compridas cinza, amarfanhada no deitar, a gola encerrando o peito, faltava um botão à altura do umbigo, pouco acima ou pouco abaixo, mas sem se notar.
À medida que os presentes se tornavam tal o nome, a área, aberta por diversos buraquinhos censores de mosquitos, pernilongos e outros insetos voadores e de mesmo (ou próximo) tamanho, manifestava-se num calor em escalada, subindo dos pés - se ajustando dento dos calçados, empapuçando o vão dos dedos nos chinelos - passando aos dorsos - deixando linhas corrigíveis nas dobras de barrigas sentadas - às cabeças, reluzindo em testas, esvoaçando no enxarcar os cabelos.
Todos ali cumpriam o mesmo ritual ao chegar, independente de classe, cor,crédulo, todos, o farmacêutico aposentado, a vizinha, o dono da venda, o bêbado à hora sóbrio, entravam olhando os lados, as paredes no embolso, o armário de um pardo pálido, alcançavam a passos curtos o rosto do velho, acomodado num riso frouxo sem mostrar os dentes, e se serviam de um café ralo, até que o da venda trouxe roscas semi-doces, depositadas aos pacotas sobre o fogão tampado, devorados em seguida por dentes firmes, espalhando por toda a boca os micropedaços de farinha. Só um homem, esguio e pardo, barba pouco grande, caminhou reto ao velho, ao olhar atento e à boca cheia dos demais, e fitou por instante demorado. Seguia-o uma mulher negra, magra, arrastando pelas mãos garoto mínimo, shorts verdes e camisetinha branca.
Os presentes ainda seguiam aos olhos os novos, a mulher deixava a mão do menino, que em passos lépidos atravessou a sala e foi dar ao portão olhando o quintal, e pousava uma mão espaldada nas costas do homem a olhar. Era o filho, de pé. O pai, o velho, mal acomodado na caixa, como se dormindo, deitado.
"Seu Junin, condolência...", o bêbado não se apresentava em tal estado, mas os olhos amarelos, contrastantes com a pele negra, luzidia pelo calor, o entregavam. E foram mais e mais frases, elogios ao homem que foi, trabalhador, criador do próprio filho depois da viuvez, alegre, amigo, sem igual. A todos o homem sacudia a cabeça, agradecia, num "obrigado" entre dentes, semi-mudo, miado.
E como as horas passando os presentes permaneciam (só o farmacêutico saíra, mas voltava, era um minuto), o homem sentou-se, acomodando as costas na cadeira retilínea de madeira, bebeu de um gole o café, e sem tempo sentiu a barra da calça jeans a ser puxada. Era o filho, seu, com olhos esbugalhados a sacudir pipa vermelha na mão. Desceram, e apesar do pouco vento a pipa se levantou, sacolejando no sêco a sombra viva, refletindo-se no rio passante por detrás da casa, iludindo os olhos.
"Júnior", a voz da mulher percorreu trilha reta, informação, hora chegada. O homem se ditraiu, virou os olhos, e a pipa planou boiando na margem longe do rio. Ao alarido do menino o pai o levou ao colo, abriu o portão de bambus dando pras águas e chegou a sentir o traço frio do pisar à beira com tênis furados. A pipa logo sumiu, e o rio seguiu seu curso, levando folhas e o que mais.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

ALGUM

Um José caminha ferido ao encontro, um repuxo nas carnes, sangue fervendo ao corpo - trepidação de paralelepípedos e iluminação parca. A poeira o absorve, do chão sem varredores, das frestas, do tempo; vento ausente, céu de estrelas que só o olhar alcança.

Os passos vacilantes tateando as escadas, álcool e horas a fio, um gosto amargo na boca, barba na necessidade de fazê-la. O giro da chave gira a porta, exerce voltas nas paredes, figuras estranhas no teto descascado. A porta se abre, de tanto forçar-lhe por fora entregou-se por dentro, sandálias, pernas, pijamas brancos, e uns olhos perdidos, negros feito o céu.

A xícara no apoio, café fresco esfumaçando o rosto, lábios rachados abocanham o último trago, dedos magros lançam a guimba a nem ser. Um José permanece sentado, pernas finas, planta do pé acolhendo o chão, cabelos tal ventania. Espera. Maria, Tereza, ou qualquer outro nome, de olhar negro como o céu da noite, ou azul como da manhã. Instável - corpo fixo no dia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Então

Narrativa cantável


Do momento em que o raio clama, risca o céu já cinza, sorrisos ainda espalham a avenida, gargalhadas via telefone celular, menina bonita de passos largos, sacolas e bolsas às mãos. "Essa é pra levar pra casa SeuZé, no plástico". Quinze graus - o homem sacolejando a panela de pressão, gravatas e vestidos passeando, bijuterias e amendoins torrados, valha-me deuses de todas as cores.

- é sempre o mesmo lugar, mudam as fachadas, as cores, mas nada.

Sinal verde. Olhai. Carros dançando em ultrapassagens, pés tremulando (asfalto - calçada - asfalto - calçada), passos largos deixaram o ponto inicial, "negócio é besteira o trabalho é sambar". Balões de gás em dedos questionadores: "trenzinho de Domingo?". Olhos ávidos nos jornais à mostra, banca de cigarros, forró com boneca de pano. Relógio de parede em pulso de palhaço, brinquedos motorizados, eletrônicos, DVDs, "dois é oito um é cinco".

Queria andar feito equilibrista pelos muros, encarapitar-me pelas jabuticabeiras vizinhas, driblar em terra vermelha, levantar papagaio.

Ninguém a espera, mas surge. Sacolas e bolsas às cabeças, corridas a lugar nenhum, escorregões, "Ih, que aumentou a dose". Frenagens em uso, desfile de reflexos pelo asfalto. Passos largos agora curtos, param em sombra de guarda-chuva - inclinam-se. Isqueiro sem funcionar, barraqueiros em retirada, grande público sob as marquises.

- anda em círculo, cambaleia, persiste.


* ainda há: um a dançar, olhos cerrados sem Norte.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A banda do tempo

Pegamos as traquitanas no bar do NemParece e começamos ali mesmo a fundar a sonoridade
única de nossa trupe celestial que partiria brevemente a algo de singular num mundo formado por som, cor, poeira, ou tudo isso agrupado a uma sinfonia de Beethoven que nunca ouviríamos.
Um no surdo outro no tambor, a fim de ouvirmos, guitarras flautas coros e garrafas de cerveja que perambulavam pelas mesas enquanto estravagantes notas, moedas e até cheques pré-datados recusavam-se em ressonar.
Nem parece que embebedamos o luar com nossa arte a ponto de gargalhar e queimar-nos. Parecíamos era fazer sucesso diante do fato de o público ser formado por nós mesmos, mas ao tempo em que alguns integrantes principiaram a desertar e o dono do bar, nosso maior entusiasta (e por que não dizer fã número um?), varría-nos porta a fora munido de vassoura de piaçava, palavras de baixo calão e uma conta quilométrica que enforcáramos sem dó e com requintes de crueldade, decidimos encerrar nossa curta porém promissora carreira por divergências artísticas numéricas e monetárias, além de alguns integrantes que desejavam , por própria satisfação e luxúria, ampliar a carreira somente para cheirá-la logo em seguida.
É certo dizer que o dia respondeu com desânimo à nossa desistência soprando um vento gélido e turbulento que nos levou a assobiar uma modinha fúnebre enquanto dançávamos involuntariamente abraçados pela marcha do retorno, mas como se tudo não se bastasse a nada caiu-nos dor de cabeça inigualável a hora de acordar, a que cuidaremos com um pacote de aspirinas, meia dúzia de refrigerantes plenamente gaseificados e o eterno desejo de surgir música em todo e qualquer estado geográfico e espiritual.
Tenham todos uma ótima noite!

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Essa noite,

A maca reluzente, cega de tão branca, as rodas chiando pelos corredores de apartamentos fechados. Mãos pensas, as veias tal cicatrizes, o rosto enrugado. Teto de infiltrações, ilustrações estranhas.
Calma, respira
Contrações sem ser, boca sêca.
E o ar?
"Abre aê Juarez!"
Inútil...velho inútil.
"O que?"
O rio, o sol, aqueles pássaros que não sabia nome.
"Calma senhor"
Um tempo cinza, ridículo.
"Maria"

esse mundo:

"Você tem apelido?"
"Não"
"Todo mundo tem apelido"
"Eu não tenho"

A bola quicando por de trás da quadra, muro de chapisco.

"Com quem você mora lá?"
"Minha vó"

O franzino no quintal, a cachorra correndo feito vento atrás do galho.

"Vem Tico"

Os pés da velha se arrastando pelos tacos, chinelo de tira só, grossa, vestido cinza surrado.

"Tico?"

As mãos de menina, uma rosa. O caminho trêmulo que se faz de volta.

"É"

A chuva molhando a avenida, cabeças feito formigas.

"Obrigada"

A luz rebolando na lâmpada, trovão.

"Deita meu menino"

As pernas que se afastam trepidando nos paralelepípedos, três da manhã.

"Você quer voltar pra lá?"

O menino ressonando sonho no sofá-cama.

"Boa noite Tico".

terça-feira, 26 de junho de 2007

cigano

Água: dois momentos, olhares

1

O menino esfrega os pés no barro escuro de beira-rio, "Tico!", os olhos vendo o Paraíba passar, pardo, festival de folhas dançando na correnteza.

2

"Tico, vem comer". Era Antônio. Os olhos se esgueirando pelas grades do portão do quintal. Cheia. O rio indo se encostar preguiçoso no portal. Layla farejando o calcanhar, desabrigada. Quinze anos, espinhas, tédio. "Tico". É Antônio vó

Caminho

"Quando chegar liga. Tem orelhão na porta do prédio".
Cinco da tarde, Domingo, o sol fervendo o chão de paralelepípedos, empapuçando suor debaixo dos braços. Pequena barba por fazer. Dezessete anos, desengonçado, bolsa imensa no ombro direito, esquerdo, direito.

- rodoviária - ônibus Progresso, poltrona 35. Velha, múmia, não rebaixa o banco. Ignição. As costas tentam se acomodar na poltrona disforme, mastigando o corpo.

SEJA BEM VINDO A ALÉM PARAÌBA

Saída. Os olhos que acompanham o rio, calmo, por baixo da ponte. Tico vasculhava a mochila, maço de STAR pela metade, isqueiro azul, carta.
Maria.
Olhos negro fugidios, cabelos grossos, caracóis ao vento.
"Você volta?".
"Mês que vem", o dinheiro só dá pra voltar uma vez no mês.
Vontade de fumar.
O rio rebentando nas pedras antes de Sapucaia. Abaixa os olhos. Sono. Não há mais rio. Seguiu seu caminho por outras posses, vadio.
Tico ressona na poltrona dolorida.
É Antônio vó

terça-feira, 19 de junho de 2007

(In)definido.

O rosto branco, os cabelos negros sustentados pelos dedos, os olhos claros por trás dos óculos, a boca - pausa trêmula, o cigarro vindo de mão outra vez em quando, cinza imensa.
Repulsa não?A repulsa?Não. Paixão, violentada, talvez. Os cantos dos ossos que doem, nada mais. Nenhum gosto na boca.
A espera.
Os olhos indo por muito mais longe que as janelas dos apartamentos. Vaga-lumes. Esperança de achar espaços.
Lugares feitos de carne.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

o osso

Estão os dois sentados à beira do abismo, beira do asfalto observando os longes que sinalizam vida.
"A vida é no osso"
E noite aparece em faróis, mente divagando coisas de noite.
"o hermínio da quitéria foi-se hoje, dizem que por faca não sei"
"menino novo coitado, mas coisa de cachaça é assim mesmo"
"cachaça e dinheiro, mulher, porque tudo envolvido, os três num só"
"quitéria deve tá arrasada coitada, marido, filho, tudo envolvido com os demônio"
E os traços de noite se embrisando em pouco, muito, vento forte, pouco, muito, rastro de farol, cargueiro ou de casa, rabiscando o chão.
____________não
_______________não
__________________não
_____________________não
________________________não
___________________________não
___________________________não
___________________________não
___________________________não
___________________________não
________________________não
_____________________não
_________________não
_________________não
_________________não
__________________.
__________________.
__________________.
"os caminhão passam rente hoje, melhor entrar"
"ficar mais um pouco"
"ara(!), deixa de ser besta, na hora já"
A vida é no osso, inerte, que por falta não trepa em caminhão, sai voando por aí, passarinho.

quinta-feira, 29 de março de 2007

(amor

De longe o vi, primeira vez, e acho que foram meus os primeiros olhos, seguidos dos dele, sol de meio-dia, vento quente, estranhezas. Nem sei o que foi mais estranho, eu, ele, o horário improvável de se encontrar, o rosto de formatos grandes, espécie de homem-menino, graça, meus braços, longos, blusa amarela, trânsito, atenção, falta de.
E era toda primeira vez, primeiros passos, desconsertados por observar outros passos, brilho nos olhos talvez, nem sei, pois primeira vez se fez em tudo, no olhar outros pés, pernas, tronco, membros, rosto, cabelos negros desmanchando vento, olhos feito sorriso, negros. E meus olhos azúis-de-lente olhando tudo só aquilo, cabelos crespos que odeio, sacolejando, pele, sol, passos, tremem, galho no vento.
Era isso.
Só.
Parágrafo de uma linha, sem inversão, invenção.
Ele.
Eu.
Eleeu.
Ele e eu.
Sem nó, soltos, encontro sem sombra no sol.
Assim, faltava um "oi", "tudo bem", um sei-lá-o-quê, olhar, sorrir, falar, gritar, sentir, tocar, enfim. Só o fim faltava.
E findo estava, desde início, findo está. Carro correndo por cima da faixa, ele, eu, todos os outros, corpo de menino-homem sorrindo pro céu, sorriso desgosto, careta mais, dor talvez, talvez não, amor que começa-acaba, sonha, zombeteiro, engraçado se não triste, trágico, amor doido que corre pra lado que nenhum lado sabe qual é, carinho, olhar homem-mulher, rápido, do tempo.

terça-feira, 27 de março de 2007

Se Marlene pinta os pés pra ir à igreja.

Se Marlene não nasce nada de novo aconteceria, a casa ao lado da igreja seria a mesma, as paredes ainda estariam estranhas, como se fossem do século passado, o teto do banheiro continuaria cheio de infiltrações, as janelas continuariam rangendo ao abrir, a luz acima da porta principal continuaria trêmula e o sol continuaria a bater no chão, nada haveria de mudar.
Se Marlene não cresce rápido, tornando-se logo mulher feita, seus olhos ainda seriam de azul raso, como tantos azuis, as pernas continuariam finas, as coxas macilentas, o dorso ainda arqueado, tudo ainda seria próprio de Marlene.
Se Marlene não conhecesse Reinaldo aos quinze anos talvez o fizesse aos quatorze, quem sabe aos dezesseis, mas o faria, na quermesse ou na feira de Sábado, num sol amarelo e forte ou na chuva, fina ou grossa, à tarde ou à noite, independentemente do vento, ou dos pombos que voam sobre a praça, ele diria “oi”, e ela responderia, por um sorriso truncado ou uma longa gargalhada, “sim”.
Se Marlene não tivesse dois filhos na primeira gravidez, ainda assim, Reinaldo continuaria bebendo todos os Domingos, continuaria pedindo à mulher para que não fizesse nunca mais bife de fígado nas quartas-feiras, xingando-a toda noite, amando-a logo em seguida.
Mas se Marlene pinta os pés para ir à igreja tudo muda. Não para ela. Os pedidos continuariam sendo os mesmos, saúde, paz e um futuro melhor. Seus shorts continuariam sendo cor de rosa, sua mãe continuaria dependendo dela pra comprar os remédios e tratar da diabetes, Reinaldo continuaria pulando de emprego em emprego e as crianças continuariam brigando umas com as outras pelo carrinho de flexão amarelo. Se Marlene pinta os pés para ir á igreja, abaixa os olhos pra rezar e coloca os pés no lugar em que os fiéis se ajoelham, talvez a imagem de São José, ou a de Cristo, dependendo do lado em que ela se senta, veria dez dedos tortos, sorrindo em vermelho.

quinta-feira, 22 de março de 2007

- cambraia -

de que adianta o amor através dos tempos, cotidiano de carinhos, sonhos compartilhados, se o melhor beijo fora dado uma única vez - em lábios jamais reencontrados

Acendeu o cigarro. Afrouxou a gravata.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Nós dois.

- Quem é ele?
- Um amigo.
- Não é meu amigo.
- É meu amigo.
- Tem nome o seu amigo?
- Reinaldo, muito prazer.
- Tudo bem.
- Que você estava fazendo?
- Lembrando da nossa primeira vez.
- Nossa.
- Minha e dela.
- E como foi?
- Eu não me lembro muito bem. Sei que foi bom. Muito bom.
- Alguma coisa em especial?O lugar?
- Não me lembro. Lembro dos cabelos dela servindo de pele ao travesseiro, encaracolados, lindos. Lembro do cheiro. Bom. Os olhos. Já te falei dos olhos dela? Eram de um azul, um azul cru, sabe, céu de meio-dia, cru, lindo. Eu lembro disso o tempo inteiro. Os cabelos banhando o travesseiro. Os nós dos dedos. Ela socando as costas da cama. Meus dedos. Meus nós forçando a carne.
- Tudo bem.
- Eu quero vê-la.Preciso vê-la.Quando ela vem?
- Ela não deve demorar.
- Eu quero ela aqui. Agora.
- Eu sei. Eu já chamei, ela ainda não veio, mas, mas ela não deve demorar.
- Mas eu quero agora.Eu quero.
- Calma.
- Quero...
- Calma.Calma!Me ajuda Reinaldo!

* * * * * *

- Essa é ela. Isso é o que ele fez com ela.
- Nossa. Como?
- Os dois, viciados em crack, cocaína, enfim. Ela parou, tentou deixá-lo. Ele não tinha parado ainda.
- Mas como aconteceu?Um pedaço de pau? Uma pá?
- Ela voltou em casa um dia, pegar umas coisas. Estupro seguido de assassinato. Ele a matou com as próprias mãos Reinaldo.
- É. Não me estranha ele ter ficado desse jeito.
- Que jeito?
- Doido?
- Não se iluda. É só pra amenizar a pena.
- Como você me diz isso? A mulher não tinha cabelos encaracolados, não tinha olhos azúis, ele esqueceu completamente quem é, era, ela.
- E?
- E você acha pouco?Ele esqueceu como era o rosto da própria mulher. Da própria vítima.
- Quem tem esse rosto Reinaldo?
- Não sei.
- São meus os olhos azúis. São meus os cabelos encaracolados. Meus.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

nós

- E então?
- Não sei. O fato é que a primeira impressão foi essa, eu a via de duas cadeiras atrás, via a parte lateral dos dedos, alguns, ela colocava a mão esquerda apoiando o rosto, parece que olhava pra rua, sem procurar, só por olhar, e as unhas não eram feitas, sem esmalte, e tinha os cabelos, os cabelos castanhos, encaracolados, bem bonitos. E daí que ela soltou, uns dois pontos antes do meu, levantou recolhendo do colo uma mochila creme, colocou-a de uma só alça e puxou a corda, eu desci logo atrás, era uma perseguição interessante, para os outros eu estava andando calmamente mas era como se eu fosse assassiná-la ou coisa parecida, sei lá, sei que ela se vestia basicamente, camiseta branca, jeans, tênis, a mochila pendurada num ombro, os cabelos encaracolados. Pensei até em correr, correr não, andar um pouco mais rápido, fingir tropeçar nela, ou passar a sua frente, virar logo depois os olhos pra atrás e ver seu rosto, mas não, eu não quis fazer isso, era com se a violentasse, preferi só segui-la por mais um pouco.
- E você conseguiu falar com ela?Ver o rosto dela?
- Ela entrou numa agência bancária, parou no caixa, sacou dinheiro e virou-se, era realmente bonita, tinha uns traços finos e uma cara de mal-humor.Tudo bem, não é uma beleza padrão mas mesmo assim me encanta. Eu fiquei parado pra não dar na pinta, depois olhei de canto de olho, alcancei-a e fui atrás. Pra mim não interessava o rosto, era tudo, um conjunto de coisas, principalmente a nuca, e os cabelos, as costas das orelhas, tudo bem distribuído, compatível com o resto, o cabelo encaracolado fazendo nós na ponta do rabo de cavalo, incrível. Mas então ela entrou num prédio, eu tentei chamar alguém mas o alguém não existia, então eu fui embora, é estúpida a história, eu sei, mas era só o que eu tinha pra contar, na verdade me marcou muito, tudo isso me marcou muito.
- Tudo bem.
- Foram os nós que me marcaram, os nós, só os nós.
- Tudo bem.
- Os nós...nós...
- Tudo bem, agora chega, calma, escuta, eu vou te encaminhar pra uma outra área, onde vão poder cuidar de você vinte e quatro horas. Você vai ter que se comportar dessa vez tudo bem?É sua última chance, senão eu vou ter de tomar outras providências, um tratamento mais duro, nem um pouco agradável.Você vai se comportar?

libelo

O pai, que tantas vezes provocou em mim o caos nos olhos com impropérios seminários à mesa, chegava em casa após mais um sol que se escondia, fatigado, os olhos resplandecendo desgosto por mais uma semana e menos cobre, o corpo feito trapo, se arrastando degraus acima. E ao virar o trinco da porta principal, com o mesmo barulho de tantos anos, não iluminou o canto da sala, nem depositou as chaves na manca mesa, pouco antes de ouvir.

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Perdão meu pai!Perdoa-me por não conseguir o que tanto me pedistes!


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Quão bravo era o pai, todo o dia na labuta, prendendo as linhas de camisa, a ponta dos dedos, todo o senso na maquinaria; e ao almoço atravancado, ao prato frio, dedos gordurosos na refeição da mãe, aguentando os olhos dos infelizes homens que, ao ver o velhor persistente, lançavam infâmias de não de não amigos.

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Não és meu filho!Não és nem nunca serás!Lembraste bem do que me dissestes?Lembrastes?Como meu filho?Como?


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Ao sentar á mesa, o rosto lívido pelo cheiro de café fresco, pelo colorido dos pães à cesta, vi minha mãe sentada em lugar distante apesar de perto, olhos pacientes, gesto calmo.
Foi quando meu pai chegou, quando minhas mãos já trancafiavam o pão sadio, quando ouvi minha mãe por entre dentes, "espera..."

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-Amanhã filho vais à labuta com seus tios, acordarás cedo, aprenderás a roçar o solo, plantar e colher, já chega de olhar às ruas por todo o tempo, chega de ser inútil à sua mãe, à casa; és um inútil meu filho mas não deves sê-lo, nenhum homem deve ser inútil e tu não o serás.

-Não vou meu pai.

-Como não vai?

-Não me vejo bem no campo, não vejo o campo como meu lugar.Não vou meu pai.

-Vais.Vais.Não tens amor pela família?Não vês que falta o cobre nesta casa?Não vês que tu só faz faltar o cobre?

-Não falto à família meu pai.Meu amor é sincero e grandioso.Mas mantenho a chama acesa de meu próprio amor.Se não me vejo em um lugar não vou.

-Tua chama é muito mais que isso.É descomunal o fogo que move a ti.Não és digno de ser filho.

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Animal!És um animal!Nada mais que isso!

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Ao presenciar a mãe indo à reza, desloquei-me até seu quarto, principal. Procurar nos guardados a arma da casa era pôr fim a tudo, enfim sentir-me em meu chão.
E, lembrando de todas as manhãs, infinitas, apontei minha salvação á porta, escondido no escuro canto da sala.

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Enquanto as mãos do pai espancavam meus ossos, a cabeça, guia, remoía perdão e lástima.
Pobre pai, não sabia deveras que os grandes amores comprovam-se
até mesmo em pequenos
erros.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

outro dia

Manhã.

Ao lado do supermercado, no prédio de fachada verde e branca, quinto andar, apartamento 501, janela da sala, centro da janela. A menina de olhos incertos mexe no cabelo com dois dedos, a boca semi-aberta, o cotovelo direito sobre o alumínio frio,a camiseta rosa que contrasta com o dia nublado.

Um som quase eterno.

se ela estivesse soubesse achasse qualquer coisa infinita meu amor sentimento dúvida muitas dúvidas milhares de dúvidas onde ela está um dois três quatro cinco seis sete oito nove zero azul a calcinha azul eu de azul naquele dia aquele dia não era azul era cinza tanto faz onde está ela um mais dois três mais três seis mais quatro dez mais cinco quinze mais seis vinte e um mais sete vinte e oito mais oito trinta e seis mais nove quarenta e três mais zero quarenta e três se fosse mais dez seria cinqüenta e três não daria sessenta azul tudo azul onde ela está onde

Um espirro.

O movimento da cabeça – a cabeça vai para trás depois bruscamente para frente, quando volta os olhos estão cerrados, quando abrem-se, lacrimejam.
O que se vê – na inclinação vê-se o céu, os olhos cerram-se, voltam lacrimejando, a visão turva foca um garoto negro de olhos fixos, batendo o telefone.
As mãos – as mãos com o voltar da cabeça jogam o cigarro no chão como por um susto, tremem um pouco.

Devagar ao travesseiro.

ele eu não quero ele eu quero ele mas não e o outro aquele outro Luís o nome dele as rosas na estante pote cheio d´água água mineral Santa Luzia verão muito sol calor praia bíkini listrado o sol óculos escuros a chuva vai cair a chuva o céu está negro e ele onde será que ele está deve ser com uma puta uma puta eu nunca fui puta e não quero ser puta eu não quero ser puta não não quero lavar meu cabelo escovar os dentes prova amanhã Geografia um saco pedras rochas e ele onde ele deve estar e o outro pensando em mim e o outro quantas outras ele deve ter e eu quem sou eu um pêlo o cobertor tá frio tá quente lá fora como está lá fora como está

Ponto 2, olhar 1.

Esperando o ônibus a velhinha de casaco marrom aperta nas mãos as sacolas do supermercado, o mesmo que tem pequenos preços e grande economia. Os olhos já cansados escondidos atrás das lentes grossas filmam devagar o movimento das ruas, os casais jovens de mãos dadas e sorriso claro, os mais velhos de mãos soltas e sorriso amarelo.Um ônibus, muitas motos.Alguns carros.Por onde andaria o 402?Seria uma viagem como em todas as outras compras.Meia hora até chegar em casa, recolher o gato que foge pra rua, arrumar os pratos, os garfos, os copos, de um tudo tem que se fazer pra manter uma vida em ordem.

“Opa!”

André andava decidido, era hoje, claro que era, não poderia deixar de ser. O dia continuava cinza, a mochila era leve e ele pensava em tudo, José Saramago, aviões, a loirinha da padaria, o filme do Tarantino, uma vassoura de folhas.
O sinal fechou, os segundos contavam decrescentemente e André focou-se no 10, 9, 8,7...saiu correndo e chegou no 1 ao outro lado da calçada.Desviou de uma menina de blusa branca mas não escapou da velhinha que se encontrava no ponto.”Opa”, disse ele, e, olhando a velhinha de olhos engraçados por trás dos óculos, seguiu em frente.

“eu...”

O telefone tocou, estridente, três vezes.Camila atendeu com ar cansado.
-Alô?
-Sou eu.
-Oi.
-Tá bem?
-Sim, tô.E você?
-Legal.Tô em casa.Quer sair?
-Não, tô cansada.
-A gente tem que conversar.Desce.
-Prefiro outro dia, hoje não, tenho muita coisa pra fazer, prova...
-Por que?
-Por que o que?
-Nada, esquece...eu...
O silêncio alongou-se por segundos rápidos.Do outro lado, a linha caiu.

Ponto 1, olhar 1.

Juliana atravessou a avenida principal de olho no cronômetro que corria no semáforo. O casaco preto fechado à altura dos seios, por baixo a blusa rosa manchada de café. Eram horas vazias aquelas do início da manhã, a aula era à tarde.
Os olhos vivos e castanhos raiavam inertes, nada acontecia há tanto tempo que os rostos da rua pareciam máscaras disformes, aleatórias a qualquer observação.

Tudo.

André postou-se à frente do orelhão. Olhou ao redor.A rua cheia de gente irradiava pressa.Um homem de meia-idade, tranqüilo, olhava o nada sustentando um cigarro na mão direita.
Olhou as teclas negras, enfiou o cartão, digitou o número e enquanto esperava a outra voz aparecer somava os números.Nunca o resultado era com zero no final,nunca.Onde ela estaria?
Ela atendeu, disse que não, disse tudo menos o que ele queria ouvir, disse nada.
Os olhos sérios focavam o interior empoeirado do orelhão.Bateu o telefone sem ter mais o que dizer.

Ponto 3, olhar 2.

Juliana chegou ao outro lado da rua. Uma mecha de cabelo habitando parte da visão.De trás do orelhão saiu um garoto negro de olhos uniformes. Juliana o olhou por alguns segundos, segundos que pareciam tempo ganho. Ela baixou os olhos, seguiu pra casa. À janela o céu cinza parecia clarear, e o mundo de cabeças abaixo parecia ganhar vida, como uma música que se toca no verão.