terça-feira, 10 de junho de 2008

estória de amor



(fragmento)


Love is just a lie
Happens all the time
Swear I know this much is true

(The Magic Numbers – Love Is a Game)

Era como se o mundo fosse muito maior do que a cidade e nós estivéssemos dormindo.

A mão dela fez de fora despencar a maçaneta na claridade da sala. Recolhi quase junto ao fundo do cinzeiro o cigarro recém-tragado esfumaçando a janela de vidro que dava à rua de mão única; ao outro lado um fícus estático desenhava a escuridão: temi olhá-la.

“Não precisa apagar” (encostou-se com as saias abertas no rodapé à esquina do cômodo)

“Você não demora”

“Quando a gente chegou nesse ponto?”.

“Não sei” (pausa pra outra tragada, finalmente após esta apagarei o cigarro) “Eu queria me desculpar mas não sei o que fiz”.

“A gente esquece então?”.

“E se nós lembrarmos depois?”.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A quatro

Éramos sete na brincadeira inicial: eu, João e José (os gêmeos), Inácio, Henrique e as meninas, Julia e Amanda; todos sentados pela calçada estreita do beco da caixa d’água, ao lado da mina, ouvindo o mais velho Henrique, um galalau que fazia de seus treze anos uma afronta aos nossos miúdos dez, onze. Março devia ser pelo calor, a rua estreita já se esvaziando de anteriores faróis em direção ao centro espírita, assembléia de Deus ou o São Sebastião – sete e meia, oito se tanto. Escutávamos Henrique lado a lado, atentos a proposta. “Mete sarrafo” disse ele, alongando os braços para cima e retirando a camisa branca que grudava em seu corpo, “é fácil”, completou, como se torcendo o pano ao máximo a fim de proporcionar um nó em sua ponta. A brincadeira consistia num jogo de perguntas e respostas, um de nós perguntaria qualquer coisa e à resposta lançaria pro alto a camisa enroscada dando ao vencedor o direito de sabatiná-la contra as costas dos outros colegas, inclusive o autor da pergunta, até um ponto determinado. “Eu começo” disse Julia, rebolando as pernas magrelas ao encontro de Henrique, ainda de pé; “eu começo”, repetiu. Henrique sentou-se ao meu lado, incomodavam-me as pernas agigantadas roçando-me o corpo na calçada fina. Pouco me concentrei nos olhos ávidos de Julia por trás dos óculos, sua pergunta, “quê que tem em cima das casas do beco?”; sequer me atentei à resposta de João, ou José, “antena parabólica”. “Parabólica”, resposta certa, pensei, meus olhos ainda assimilando a camisa que lançada pelas mãos de Julia ao alto, voltaram às mesmas. “Não”, ela disse, um som agudo e interrompido pela voz de Henrique, alta, “antena comum”: mete sarrafo! Corri-me descontroladamente, as pernas entrelaçando-se, ao poste que, antes determinado, era nosso porto seguro, o vergalhão de concreto em frente ao centro espírita. Chegando, assisti a tudo: Henrique recolhera do chão a camisa enroscada e a enganchou com a mão direita de maneira que a parte do pano segurada se assemelhasse a um cabo de guarda-chuva; correu como se tivesse um ponto certo a chegar, atingindo no caminho Julia na altura do cóccix, com o gomo do nó por inteiro, Amanda na nuca, uma pancada seca, o nó de lado, e Inácio no braço esquerdo – escapáramos eu e os gêmeos. E enquanto ofegantes estávamos e Henrique juntava-se a nós, ouvimos o choro das meninas, alaridos vindos da calçada à pequena distância. O galalau moveu-se até as duas, acompanhado por nossos olhos ofegantes, postando-se ao meio dos gritos, “isso não é brincadeira de menina, vai pra casa”. Não sabia para qual delas o conselho fora, mas as meninas entenderam da mesma forma, em passos lentos em direção à Sobral Pinto. “Vamos brincar de outra coisa”, disse Inácio coçando o braço esquerdo. “Pique esconde” um dos gêmeos disse, um tanto arrependido. “Ótimo, eu conto”, retrucou Henrique como contrariado; “até cem”, eu disse vendo-o no poste antes salvação, a testa encrava no antibraço direito. “Atrás daquele carro ali gente”, sussurrei, mas os gêmeos não aceitaram com as cabeças em coro, “fácil demais” contribuiu Inácio, “na casa abandonada” acrescentou. A casa abandonada tinha dono, morador futuro, pois nada tinha em abandono, estava em obras: andaimes e baldes de tinta e sacos de cimento e areia, ferramentas e nenhuma luz; entramos pela porta principal, um retângulo de compensado que figurava, e resolvemos esconder-nos ali mesmo no primeiro andar, eu atrás de uns pedaços de madeira à direita, deitado, os gêmeos agachados atrás dos sacos de cimento em direção à porta, Inácio perfilado a uma coluna grossa de concreto que ornava o lado esquerdo; nossa esperança: Henrique subiria as escadas. Aguardamos calmamente, mas à grande distância que nos separava da contagem sequer ouvimos o “cem” final. Henrique entrara a casa depois de um tempo; cauteloso mas dificultado pela luz vinda apenas da rua, não nos viu e resolveu subir ao andar de cima. Saímos em felicidade nos olhos e movimentos bruscos, risonha vitória cortada abruptamente por um estrondo na parte de cima. Cravados as vozes e corpos estávamos em quatro, os gêmeos lado a lado, eu à diagonal esquerda de um, Inácio à diagonal direita do outro; a luz da rua desenhava a porta: o último ponto de nosso pentágono irregular.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Domingos e festas

O casaco em frangalhos movimentava-a pelo quintal dentre as plantas do canteiro, uma alameda de salsinhas e cebolinhas que desembocavam no grosso tronco da mangueira; à frente uma raquítica goiabeira se encostava à cerca de bambus amarrada por arame, à esquerda o mamoeiro. Abriu o portão com as mãos trêmulas e pisou, chinelos e meias, na flácida beira-rio, as águas estéreis aos ouvidos, o frio que cortava o rosto, os lábios, o corpo num Agosto gélido. Do outro lado, as casas apagadas, silêncios. Volveu o corpo em direção a casa, os pés tateando a terra escura, o cimento liso da ladeira de acesso. Na cozinha, à luz acesa, aprumou o coador na térmica (vigiando a leiteira ao fogo), lavou um copo, partiu em dois o pão que dormia solitário no fundo de uma sacola por cima do tampo de vidro do fogão (vigiando a leiteira ao fogo), esmaltou com manteiga as duas metades após arrancar seus miolos, esfregou os olhos que rebolavam a ir pra cama, desligou o fogo observando as bolhas de água elevando-se em mínimas explosões, despejou-as. A luz amarela e trêmula contemplava o chão de mesma cor da sala conjunta, a bi-cama desarrumada por cobertores, a tevê que explodia quaisquer gentes, quaisquer vozes, o telefone calado, trancafiado o discador. Avançou os pés pelo ressalto que abria a sala de estar, a segunda metade do pão ainda mastigando, o café na caneca de alumínio que esquentava as mãos; a planta que enfeita no Natal com luzes (fins de Novembro a Dia de Reis) sustentava um dos cantos; à frente a Santa Ceia em vidro bem à altura dos olhos. Ladeou os dois sofás de napa marrom, flores cravejadas no dorso, no fino espaço do primeiro cômodo da casa, e sustentou-se frente à janela da rua, os olhos andrajos pelo muro do Esporte Clube São José: VAMOS LÁ BRASIL – FRANÇA 98. Um sussurro qualquer distraiu a observação, mas a porta ainda inerte apenas amparava a sala com seus semicírculos entrelaçados num tapete de vidro: plena escuridão na varanda de fora. Vasculhou os óculos nos bolsos da roupa, e colocando-os enxergou seu quarto parcamente iluminado pela luz da sala, a colcha vermelha bem esticada, o terço preso acima da cabeceira e que, perfilado, era uma trança negra e única. E o que ele diria se ali estivesse: que bebera sim mas pouco, que não, não era igual ao pai, que ela dormisse pois amanhã levantaria bem cedo e a levaria à missa da Matriz, e que vó, todo trabalhador merece uma diversão, um descanso. O que ele diria se ali estivesse.

À porta do quarto, as mãos e caneca junto ao peito, os olhos pisca-piscando por trás das lentes, volveu o corpo aquiescendo voltar à cozinha.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A revés

Na altura do COPA70 caiu, cotovelos e joelhos ao solo, os olhos miúdos no concreto esburacado da calçada: lodo, poeira em lama, pedregulhos – início da madrugada de um Janeiro encharcado. Escorregara ao descer pela passagem dentre os trilhos da Rede (marias dormideiras em suas funções), segurando-se ao muro que ladeava a rua. Um gato preto o ultrapassara na altura do morro da Conceição, perdeu-se entrelaçado pelos fícus que sombreariam a rua em qualquer tarde, os pêlos afugentados se escondendo das águas.
“Desce mais uma, capitão”, os olhos fumegando o balcão engordurado, pastéis murchos deitados na estufa - três homens discutiam coisas quaisquer. Desenrolou o segundo maço de cigarros do dia, rompeu o papel prata com indicador, polegar e médio, prendeu o cilindro branco entre os dentes vendo o barrigudo dono do bar jorrar mais uma dose de aguardente (“põe mais”) – riscou o fósforo, baforou para cima, tomou o meio copo americano numa só talagada. “Mais uma e a conta companheiro”, limpou os beiços no ombro da camisa azul amarrotada e, sem dirigir palavra a nenhum dos presentes, saiu do bar olhando fundo o calçadão do Porto Velho a se perder.
Esgueirou-se pelo minúsculo corredor que separam cozinha e quartos chegando à sala, a televisão em explosões e tiroteios testemunhando os olhos atentos da menina. Sentou-se, as costas se incomodando no sofá de dois lugares, o olhar vidrado na maçaneta, no telefone. “Vou sair”, semi-silêncio, nulo impacto à atenção da filha, “já volto”; levantou-se até o móvel único, pegou as chaves e o isqueiro, a carteira; abrindo a porta, saindo à rua, sentiu as primeiras águas do fim de noite.
As pernas se encaracolavam pelos lençóis e colchas que, redemoinho, confundiam a cama vazia, o ventilador bamboleando no teto gélido de infiltrações, o suor submergindo por suas costas e dorso, vontades e calores na vista turva que se espremia pelas portas do guarda-roupa abertas, uma cadeira sustentando as calças e camisas enxovalhadas, o abajur vendado.
Trabalhou meticulosamente em nebulosa, os braços suados pelo extenso volante do TAP: linha São José – Jaqueira, os olhos que inebriados se expandiam pela praça do Porto, a Ilha, o paredão da Rede, o Santos Anjos, qualquer bar, birosca, botequim, supermercado, ponto, ponta de casa, porta aberta, qualquer olhar perdido que guardasse um chamado pelas ruas de paralelos sinuosos que tremelicavam o carro, os passageiros.
Um sol branquelo repousava sobre o quintal pelo início da manhã, a seus pés a terra batida, a sombra-cópia da goiabeira esquelética. A filha desenhou o corpo no portal da cozinha, os cabelos desgrenhados, os olhos relutando o dia. “Pai”, um sussurro, miado, a voz fina se espalhando à beira-rio, “a mãe não ta em casa não?”. Espalmou a fronte da pequena trazendo-a de encontro ao corpo, “Vai lá pra dentro filha, vai. Papai vai arrumar o café pra você”.Os dedos descobriram um cigarro amassado ao bolso direito da calça; olhou a BR longe, do outro lado do rio: o dia se abrindo.
Trôpego pela rua, tentava se equilibrar sobre os paralelepípedos, a chuva lhe incomodando o corpo. Atravessou a extensão de mão única tentando apalpar a carteira ou as chaves, os cigarros – não os achando. Seus olhos em brilho focaram o poste, a lâmpada, e era como se a chuva resultasse em inverso, como se as águas, de baixo pra cima, pontilhassem a luz. Recuperou-se lendo a placa: BAR E RESTAURANTE COPA 70, a Adão Araújo se encaminhando em direção à praça, o tempo escondendo a cidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Vermelho

Nas costas da samambaia brotoejas, áspera a pele dos dedos, Oi é a Ana no momento não posso atender, deixa um recado se quiser encostada às grades da varanda a comigo-ninguém-pode abraçada pelo sol de metade da manhã, abaixo o marrom dos trilhos brilha em detrimento à ausência de cor dos paralelos você vai me esquecer? , livros e discos empilhados pela sala, um quadro rosto de cristo talhado em madeira, a poeira dançando em plena réstia fico aqui encaracolando o tempo, tentando esmiuçar as coisas, perceber Oi, sou eu, você não está aí mesmo? . Os pés descalços se assustavam pelos hexágonos de concreto que forram a praça da matriz, à direita o coreto (uma cúpula, coroa, calabouço), à esquerda o parque vazio Eu ainda to na casa da minha mãe, fiquei aqui pra ajudar ela a reorganizar as coisas depois de ; pela frente a ladeira que alça fiéis à igreja – encravada em seu tecido a cruz de mármore o teu nome, ainda sei teu nome, ainda – o filho crucificado na capela à direita do topo: a mão desenharia a bênção ... você sabe né? Tem sido tão difícil Ana, tão difícil. Eu. Eu queria que você estivesse aqui sabe? Eu queria . O telefone ao lado direito da porta que leva à varanda – nenhuma chamada registrada o corpo, o meu, o teu corpo, tão distintos, distantes . Na sala, a mesa posta: longo descanso de renda branca, uma orquídea de plástico descansava ao centro. Livros e discos, uns a uns, ladeavam pelas prateleiras o sudário em madeira que você voltasse pra cá, ficasse comigo . O dia se arrasta pelo céu de nulas nuvens; o tempo inteiro aqui dentro A varanda tinha como porta a samambaia dependurada, sustentada por um gancho; longe, o prédio da Sete de Setembro, os trilhos que levam e trazem os cobreados vagões da rede, o sol. Ana? abaixo, a praça vazia.

Tarde

O interfone tocou?


, deitada de bruços, o ventilador de teto para cima, senão frio demais, lembrando, ziguezagueando as horas na imagem do menino indo deitar, shorts xadrez em vários tons de cinza, o dorso descoberto molhado pelo suor de um dezembro em férias, os cabelos aplanados no braço esquerdo do sofá: boa noite dorme com deus tenha bom sono e bons sonhos, olhando-a duas jabuticabas semi-esgueirando-se pelo teto branco gelo, a face da televisão explodindo em gols da última rodada do brasileirão últimos dias do arena sportv, rememorando quando vagava num início de tarde, dez onze de outubro, as pernas axilas rosto nuca abrasados pelo amarelo do sol de um meio-dia de sempre, pela ruela que desenha o vão entre a casa do estudante e a cirandinha numa loja de brinquedos descontar uma ficha do mês anterior dois bonecos comandos em ação, e ele olhos ávidos no batmóvel pomposo da vitrine, “mão eu quero!”, a magrinha vendedora, “leva pra ele”, e ela resolvendo “não, meu marido já comprou o presente, não vai precisar”, ele grunhindo, esperneando nenhuma lágrima, ela andando direta no rumo da praça arrastando o tiquinho de gente, esfrangalhando seu pulso esquerdo num “em casa a gente conversa” entre dentes que chegando potencializou-o em berros e lágrimas e um castigo de semanas sem colocar os pés na rua, “nem pra ir na quadra da vila? nem pra ir na graminha da ilha? nem pra brincar no beco da caixa d’ água?”, não senhor, e foram tantas brigas e ele crescendo, um galalau magricelo, calado, mas ainda assim respondão, truculento nas palavras, muito pior depois que o pai desabou na cozinha logo após um almoço de terça-feira chuvosa qualquer, “enfarto fulminante” disse o médico, e o moleque, homem já, até barba fazendo toda semana, cada vez mais quieto, revoltoso, socando a mochila em qualquer canto do quarto, arrancando abrupto os tênis, desligando só em frente à televisão telejornal esportivo, apoiando o prato na palma da mão direita, nas coxas: “senta aqui com a mãe” não sentava, e ela esperando a hora do banho para vasculhar suas coisas, os dedos ágeis encontrando um maço de star pela metade, uma caixa de fósforos, até que m dia no fundo da gaveta onde abarrotadas dormiam revistas em quadrinhos, envolto em plástico, na trilha única para indicador e médio, o bloco de orégano, maconha? maconha! maconha!, o que fazer, ouviu a irmã “manda morar com o Ruy em Juiz de Fora, lá ele trabalha, estuda, isso aqui faz mal pro seu filho, faz mal pra você minha irmã” e agora que as palmas das mãos alçam-na à procura de um barulho ínfimo que seja, sempre assim: nada, abaixo da janela o beco, as mãos trêmulas afastando a cortina branca, a tarde se encerrando entre fios de alta tensão e pombos que em rebuliço vão pra longe, levantam vôo dentre os vãos do telhado imundo da Rede,

o telefone?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Dois tempos

O punho cerrado fechou os olhos azuis desviando os nós para a rua pouco iluminada, não vendo a blusa de lã cinza-já-gasto abraçar o chão de mesmo tom; dolorido, se abriu feito planta dorminhoca aos ki-chutes empoeirados dos moleques da quinta série do colégio público em divisa ao terreno baldio.

A carreira escalou narina adentro ardendo a cabeça, rodopiando os olhos; o resto esfumaçado no encosto da pia de louça verde-maçã-verde fora raspado por dedos contíguos e trêmulos e esfregados no aparelho de borrachinhas azuis. Era hora - os olhos verdes focaram de súbito o espelho retangular, sorriso aberto.

O tempo daquele Junho era frio e seco, pelos lados da Vila vizinhos retiravam as cadeiras de plástico da beira da rua, mais pelo vento do que pelo céu nublado que abraçava as cinco horas da tarde do Sábado. Nos quintais, cachorros se recolhiam às casinhas, caixas de biscoito – teto pra frente e cobertor ao lado; as salsinhas, tomates pequenos, ondulavam.

Maninho assistia ao Botafogo e Figueirense com os olhos quase nulos, as duas caixas do Bar da Lôra tamborilavam na testa, mas ao alarido do pai, um corpo mulato, nebuloso e gordo, sacolejando os braços e as pernas, quase gritou qualquer coisa

- passa aê bróder. Passa aê bróder. Passa aê porra. Passa, aê. Valeu, valeu. Ahn? Deixa mais um pouco só

- Não, vamo fazê a parada sim. Quê? A Marina o quê? Ce ta onde Celso? Hein? Ah, ta dirigindo...então fala rápido pô; a Marina não quer? Ô Celso, então você vem e depois tu pega ela. É, ué. Ela não vai sair hoje? então, chega aqui, a gente sai umas onze, onze e meia e pega ela lá; não cara, eu vou de carro, tá tranqüilo, beleza então?, você vem? Não, a gente deixa o Michel e a Dani lá e depois pega ela, beleza? Então valeu, um abraço.

ADIDAS

MADE IN CHINA

BR US UK FR

42 10 91/2 44

Três amortecedores e o pardo solado

sinuoso pousaram no rosto branco,

barba por fazer, sentindo amena

resistência da carne. Outro pouso,

queda brusca, mais dois, mais três

e a massa cor de maravilha

dimensionando o céu

A barriga do bigodudo sacolejou conjuntamente ao marrom da sacola de pães, o embrulho foi sugado pelas unhas negras, escondido ao lado do cotovelo nu às seis da manhã fria; o movimento era fraco, algumas senhoras antecipando o café e, virtude da missa das sete, três garotos e um casal voltando do baile funk. Os pés negros na sola imbicaram, quase largando as havaianas no caminho, pelo beco ao lado da loja de materiais elétricos, promoções, pagamento em três vezes, telefone três quatro meia dois zero zero dois nove; as costas da camisa branca sem estampas esmurraram o muro da loja em construção, dedos ágeis vomitaram da sacola dois pães com manteiga pelo chão, dentes cerraram a massa, a manteiga rebolando garganta a baixo.

- Como é que é bróder? Ta querendo o que aí?

- Responde mermão

- Pera aí cara, pera aí.

- Ai!pera aê...

- Pára com isso rapá! Ta maluco!

- Putaquepariu.

- ( )

- ( )

- Cala a boca mermão! Cala a boca filhadaputa!

- ( )

- ( )

- Bora, bora, bora!

Emanuel, letras em grafia vermelha arredondada, triângulo azul-escuro ao lado esquerdo do peito; o pano azul até os joelhos morenos, Emanuel em branco, letra de fôrma – os olhos verdes passeavam pelo solado amarelo do pátio: a tia da cantina, o coque branco livrando o suor da nuca, serve um líquido laranja em mini-copos plásticos; a sala da sétima série aberta - a sala da sétima série aberta, a janela contemplando o terreno baldio. Correm os pés no ki-chute preto, nós e laços à altura da canela alcançavam o interior da sala, três movimentos: ponta do esquerdo no tampo da primeira carteira da fila da professora; meia sola do direito no parapeito, duas solas no barro claro do lado de fora – seguem correndo imprecisas (as mãos arrancando a camisa, os companheiros atrás) até chegarem à entrada da rua da Carroça, após a linha da Rede, no recanto de marias dormideiras lado a lado com o altar da Nossa Senhora de macumba.

Maninho desceu as escadarias do REX cauteloso, o som, as cervejas, a coca, os lábios da morena indefinível de pêagá em alguma faixa do nome com ípsilon no final rodopiavam a visão; atrás Celso, Marina, Michel, Dani, Cláudio que chegara do Rio há pouco, outra, agora loira, indecifrável – o Adidas preto vacilava os degraus cinzas. Olhou-se no espelho anterior ao hall de entrada: a blusa de lã vinho amarfanhada, os caracóis dos cabelos para o alto, a faixa que os sustentava quase à testa, olhos vermelhos. Na rua, a madrugada com cheiro de ontem, acre perfume no muro da praça, dobrou a esquina da sorveteria e viu um vulto cinza balançar o Palio vinho,

Além Paraíba- MG

GUS- 4677

As mãos sujas fecharam o zíper, na boca o gosto doce do éter (lábios dormentes), os olhos insinuantes pela parede da fábrica desativada – o chapisco do muro em cinza claro-escuro, desenho irregular; a parte amarela céu acima descascada, marcas de infiltração, pichação SAARA. As casas à esquerda pareciam iguais, retângulos a pouca luz; as havaianas de tiras e solados azuis mastigavam os paralelepípedos irregulares, carros, outros carros, muitos carros, um casal de namorados, o som do baile estremecendo o tempo frio, dois moleques dividindo um baseado enrolado em conta de telefone – RUA DR SOBRAL PINTO 378 : Júlio se demorou sentindo os lábios flamados pelo papel, quatro mãos tentavam lhe arrancar o cigarro. Levantou-se enfim, apoiando as costas nas pedras da murada, sentindo nos ralos cabelos as plantas acima – o relógio digital por dentro do carro, 04:31.

Júlio, não mais o nome na camisa e nos shorts – sétima séria, carteirinha azul marinho (Júlio de Almeida Lima/ FILAÇÃO: José Lima; Márcia de Almeida Lima), colocou os pés na calçada da Ilha, um rápido movimento de olhos – a Rodoviária o muro do Tênis – e se embestou a ladear o albergue, os terrenos baldios e empoeirados, lado a lado, as ex-pontes se desenhando de cima pra baixo; juntando-se em seguida, mesmo que de longe, aos moleques da quinta série que, fugidios, esmagavam plantas logo após a linha do trem. Seus olhos azuis replicaram rapidamente aos primeiros sinais da chuva, vendo logo após um moleque aloirado chutando a santa do altar destinado a despachos, quebrando-a contra o chão – os moleques se esbaforindo rua da Carroça, Sete, Primeiro de Maio.

Maninho socou as mãos espalmadas na blusa cinza e rota, chocando as costas do quase-ladrão no muro, deferindo o primeiro soco com raiva, diretamente nos olhos azuis vermelhos vermelhos azuis (chão para o céu), marretou a sola do tênis ao rosto do sujeito – sete vezes, até ser puxado por Celso.

Júlio observou a pequena fresta na janela do lado do motorista, o relógio digital, o éter, a maconha, hipnotizavam; quase equilibrado tentou enfiar as mãos no interior do carro sem contar com o limiar do intervalo, com os fios despregando-se da manga longa da blusa puída, se agarrando ao vidro – com ódio, sacudiu a porta parando apenas com um empurrão.

O tempo daquele Março era seco e úmido, pelos lados da Vila, Caxias, última Ilha, vizinhos retiravam as roupas do varal pelos pingos de chuva derramados do céu negro que abraçava as onze e meia da sexta-feira. Dobrando a rua Sete, dois meninos, o de shorts azuis e olhos verdes, e o de olhos azuis e jeans, desembestavam-se pela calçada estreita da quadra da Rede – um pela chuva, outro por uma santa. À bifurcação da Sobral Pinto, partiram à direita em direção à Praça da Bandeira.